Cultura Activa

Entrevistas a várias personalidades ligadas à cultura
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Wednesday, April 21, 2010

Katia Guerreiro

Katia Guerreiro é um dos grandes nomes do fado da actualidade. Através da sua encantadora e sentimental voz, a artista carrega e transmite o peso da cultura portuguesa além fronteiras. Com a sua música, Katia Guerreiro dá a conhecer o verdadeiro Portugal, aquele que possuí uma história vastíssima, repleta de vitórias e conquistas. O Fado está mais bonito, a cultura portuguesa também. O Cultura Activa fez várias perguntas à artista que está a fazer o mundo apaixonar-se por Portugal.



1- Nasceu na África do Sul e cresceu nos Açores. Qual é a sua actual ligação com cada um desses sítios?
Com a África do Sul tenho pouca ligação para além da ligação afectiva, pelo facto de lá ter nascido. Com os Açores mantenho uma estreita relação, já que esse é o meu refúgio para recuperar energias.


2- Apesar de ter seguido a carreira musical, tirou um curso exigente (medicina).
Como concilia as duas profissões? Qual delas lhe dá verdadeiramente mais prazer?
Concilio-as com bastante esforço físico, naturalmente. Neste momento estou mais calma na medicina, apesar de não ter parado totalmente de exercer a actividade.
Ambas me dão muito prazer e tenho grande dificuldade em responder a esta questão, pois cada uma ocupa lugar distinto na minha vida. Certo é que inicei as duas carreiras ao mesmo tempo, portanto lido com isto de forma muito natural.


3- De onde nasceu o seu gosto pela música e medicina?
Pela música, ainda muito nova nos Açores quando comecei a tocar Viola da Terra (instrumento típico da região). A partir daí percebi que tinha uma intuição musical, mas o canto aconteceu um pouco mais tarde, mas sem que eu alguma vez ambicionasse iniciar algum caminho na área.
Pela medicina foi quando aos 16 ou 17 anos de idade decidi enveredar pelo curso, para poder usar a minha vontade de ajudar os outros através da ciência. É uma paixão que me absorve.


4- Como conheceu o grande fadista João Braga e como nasceu essa relação de "padrinho - afilhada"?
O João Braga ligou-me exactamente no dia em que me formei em medicina para me convidar para participar no concerto que assinalava o 1º aniversário sobre a morte de Amália, por ter ouvido falar muito bem de mim e da minha voz. Fui a um ensaio em sua casa e no dia 6 de Outubro de 2000 pisei o palco do Coliseu, sendo este o momento de mudança total da minha vida.


5- Qual é a sua visão sobre o actual estado do Fado em Portugal? E no estrangeiro? Como é que os estrangeiros recebem o Fado?
O Fado em Portugal começa a ganhar mais força. Mas isto só acontece depois do estrangeiro mostrar um entusiasmo algo misterioso sobre esta música que envolve as mais profundas emoções e os mais íntimos sentimentos. Lá fora, públicos dos mais diversos países choram nos concertos e depois de se apaixonarem chegam a aprender a nossa língua para entenderem na íntegra o que esta música transmite. É muito curioso. Hoje o fado é um veículo muito importante da nossa cultura, da nossa língua e o melhor cartão de visita para sermos visitados. Por cá ainda não se aperceberam disto. E basta visitar casas de fado para nos capacitarmos disto. É a primeira coisa que os turistas querem fazer quando chegam a Lisboa.


6- Fale-nos um pouco das colaborações que teve com vários artistas como Ney Matogrosso, Rui Veloso e Dulce Pontes.
Têm acontecido de forma muito natural e são parcerias com muito sentido. Todos os artistas com que me tenho cruzado e cantado têm uma forma de estar nesta arte muito semelhante à minha.


7- De todos os países por onde já passou, qual é o que destaca como o que a recebeu melhor e principalmente à sua música?
Apesar de nunca ter sentido nenhum público hostil, desde o Brasil à nova Caledónia, ao Japão, Tunísia, Turquia,…, na verdade o meu público mais fiel é o público francês. Tenho assistido a gente a fazer 800 km para vir a concertos em diversos sítios de França.


8- Fale-nos um pouco do que gosta de ler, ouvir, etc. Preferencialmente português.
Acabo agora de ler “Nem só quem nos odeia” de Maria Rosa Colaço, estou a reler “Em nome da Terra” de Virgílio Ferreira, tenho ouvido muito Ricardo Ribeiro, um grande fadista desta nova era. Televisão vejo pouco.


9- Fale-nos de uma memória que tenha da sua infância.
Falo-vos das memórias de um mar único que me inspirou durante a infância e adolescência. O mar dos Açores com que acordava todos os dias e que trazia a certeza de um futuro virado para o mundo. Junto com esse mar, os amigos e os lugares que me ajudaram a crescer e que são ainda hoje âncora de emoções.


10- Como vê o actual estado da cultura portuguesa? O que alteraria?
A cultura está dependente do estado do nosso Estado. Mudaria essencialmente a quantidade e qualidade de ferramentas atribuídas ao Ministério da Cultura e ao Instituto Camões que tantas vezes deixa de apoiar por falta de meios.


11- Que áreas destaca na cultura portuguesa?
As artes plásticas estão em grande ascensão, novos artistas já com enorme destaque internacional como Joana Vasconcelos, Adriana Molder. Na música mais uma vez destaco o Fado de que me orgulho tanto de fazer parte. O cinema está em alta, e os nossos realizadores e actores começam a ofertar-nos com produções de alta qualidade.


12- O que é que o futuro próximo lhe reserva a nível profissional?
Concertos em sítios novos para mim como Israel, África do Sul, Pólo Norte, uma tournée com a Orquestra da Normandia a começar já em Maio, uma tournée na Noruega em Novembro, e concertos um pouco por Portugal, que terminarão com 2 concertos em Lisboa, no cinema São Jorge.


Wednesday, March 24, 2010

João Braga


João Braga é um dos melhores fadistas nacionais. Foi impulsionador da nova geração de fadistas, dando visibilidade a quem merecia.
O sportinguista de alma concede ao Cultura Activa uma grande entrevista, onde podemos ficar a conhecer melhor um dos grandes nomes do nosso país.

1- Começou desde muito cedo a cantar fado em Cascais e Lisboa. De onde surgiu este seu interesse pela música, nomeadamente pelo fado?
A minha atracção pela música aconteceu, creio, antes mesmo de começar a andar e ainda não tinha completado quatro anos dei-me conta de que conseguia cantar. O gosto pelo Fado só muito mais tarde, em 1962, é que me começou a invadir, por influência de um disco de Amália, o do “busto”, embora já gostasse de a ouvir interpretar outros géneros musicais e me entusiasmasse bastante com o som das guitarras. Esta aproximação ao Fado, numa idade algo serôdia para os “catedráticos” do género, que apenas concedem o estatuto de fadista a quem já cantava no colo da mãezinha, reforça a minha convicção de que para escutar o Fado, perceber a sua essência e, ainda mais, para o cantar, é preciso já ter vivido uns anos — o Fado é definitivamente, na minha opinião, uma canção adulta.


2- Como foi para si a estreia na televisão, num programa da RTP chamado "Alerta Está"? Como viveu esse momento e qual era a sua visão nessa altura perante um possível futuro de sucesso?
Nesse ano de 1967 começaram a acontecer-me muitas coisas ao mesmo tempo: saíram os meus primeiros discos, fui para a tropa, estreei-me nesse programa na RTP, e tudo isto no meio de um sucesso tremendo que não me modificou absolutamente nada, pois achei isso tudo natural.


3- Por que razão desistiu do curso de Direito?
Porque preferi a carreira artística à jurídica, e as duas não eram compatíveis, dada a forma intensa com que passei a exercer a primeira.


4- Como foi para si a participação no festival da canção?
Encarei todo esse episódio como uma experiência, mais ainda, uma aventura. O tema que me calhou atraiu-me sobretudo pelas palavras; o poema de Rita Olivais, “Amor de Raiz”, era muito bonito, foi por aí que aceitei participar e ainda bem que o fiz, porque o ambiente que encontrei era muito diferente daquele a que estava acostumado nos meios fadistas, mais aberto, mais desafiador, mais profissional.


5- Foi obrigado a ir para Madrid em 1974. Qual foi a razão que o forçou a sair do país e como era a sua visão perante tal facto?
Ainda hoje estou para saber por que me quiseram prender, a única coisa que sei a esse respeito é que Otelo Saraiva de Carvalho, então comandante da polícia política que substituiu a PIDE, o COPCON, assinou um mandato de captura em meu nome, mas com o espaço do motivo em branco, o que autorizava qualquer autoridade ou a pessoa a quem o documento fosse parar a meter lá o que bem entendessem. Quando regressei não obtive informação alguma sobre a causa de tal diligência, a não ser um pedido de desculpas, em nome dos militares, do Senhor Coronel Almeida e Castro, um homem alto, de porte digno e maneiras a condizer, quando regressado do exílio fui convocado para me dirigir ao 7º andar de um edifício na Avenida da Ilha da Madeira, ao Restelo, onde funcionavam os Serviços de Apoio ao Conselho da Revolução, para resolver a minha situação e aceitar a devolução de cartas, fotografias com familiares ou amigos e outros documentos privados que haviam subtraído da minha casa na Rua D. João V, nº 16, em Lisboa, quando as forças do COPCON, fuzileiros navais, se não estou em erro, juntamente com uns fulanos à paisana e braçadeiras do MDP/CDE, a invadiram derrubando a porta e levando tudo o que puderam, além da citada documentação pessoal: quadros a óleo, tapetes persas, loiças da Companhia das Índias, objectos em prata, garrafas de uísque, de conhaque francês, de vinho, de champanhe, e outras, discos, aparelhagem de hi-fi, molduras, peças de vestuário, águas-de-colónia, monitores de televisão, algumas jóias, um faqueiro antigo, enfim, tudo o que puderam na ocasião transportar, e que nunca mais voltei a pôr a vista em cima.


6- O seu CD "Cantar ao Fado" foi considerado por si como o melhor da sua carreira, por que razão, visto que editou imensos álbuns e EP's de enorme qualidade?
Era na altura a minha opinião, mas olhando hoje para os que fiz, realço igualmente o primeiro de todos, “É Tão Bom Cantar o Fado” (1967), “João Braga Canta António Calém”, de 1971, “Do João Braga para a Amália” (1984, o primeiro que continha poemas musicados por mim), Portugal” (1985), “Terra de Fados” (1990) e “Fado Fado” (1997), além do que saiu no ano passado, “Fado Nosso”. Embora hoje já não os cante daquela maneira, “Cantar ao Fado” continha quatro temas que gostei muito da forma como saíram no disco, “Ternura” (David Mourão-Ferreira), “Um Carnaval” (Alexandre O’Neill), “Bem Sei” (Fernando Pessoa), todos musicados por mim, e “Amália” (Manuel Alegre), com música de José Fontes Rocha.


7- De todos os países onde actuou, qual foi o/os que mais o marcou?
As actuações mais marcantes da minha carreira, fora de Portugal, foram: Barcelona (1970), Londres e Rio de Janeiro (ambas em 1977), Estrasburgo (1989), Nova Iorque (1998), Cidade do México (1999), Malmöe e Arzila (ambas em 2001), Recife (2007), e no nosso país, destaco as do Zip Zip (1969), uma no São Luiz (1991), outra no Teatro Nacional de São Carlos (1992, concerto dos 25 anos de carreira), na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (2006) e outra ainda em Vila Nova de Cerveira (2007). Em termos absolutos foi uma em Vigo, por ocasião do prestigiado Festival Are-More de 2003, no Teatro Cine-Fraga, com cinco chamadas ao palco, no final, as últimas duas com pateada, o que nunca me havia acontecido — é uma sensação absolutamente arrepiante!


8- Como vê o actual estado do fado?
Orgulho-me da contribuição dada em prol da nova geração de fadistas quando, a partir de 1990, comecei a dar visibilidade a novas vozes, por entender que elas o mereciam. Considero que essa estratégia de apostar nos mais novos foi muito bem sucedida e creio que o Fado do tempo que passa se espelha na alta qualidade que a maior parte dos jovens que fui convidando acabou por demonstrar.


9- Qual é a sua opinião sobre o actual estado da cultura em Portugal? O que deve ser alterado?
Infelizmente a minha opinião está muito longe de ser favorável sobre essa importante área da sociedade portuguesa. Porque se já era uma desgraça manter-se a população portuguesa no obscurantismo cultural em que se encontrava há quarenta anos, é inelutavelmente pior a instilação de uma acultura pimba em que a mergulharam desde então. Alguma coisa tem de ser feita e quanto mais depressa melhor, começando pelo aperfeiçoamento qualitativo do Ensino e acabando com a subserviência quase caprina em relação a tudo quanto as multinacionais da cultura nos impingem.


10- Que áreas culturais destaca em Portugal e quais as suas preferidas? Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais na música, literatura, cinema, etc.
Acima de todas a Poesia, porque Portugal é um país de poetas, creio inclusive que é a única onde, em termos de escola, podemos pedir meças a qualquer outro, incluindo a Irlanda, com uma quantidade de vultos de invulgar qualidade, a mesma que se pode constatar nas obras de Pessoa, Camões, Florbela, Régio, Antero, Pascoaes, Homem de Mello, Sophia, Torga, e outros mais. Noutras áreas, a minha preferência vai para artistas como Vieira da Silva (morreu francesa), Maria João Pires (em vias de se tornar brasileira), Paula Rego (em Inglaterra consideram-na inglesa), Amadeu Sousa Cardoso (francês, para muitos), Pomar, Maluda; algum cinema que se fez entre os anos 30 e 50, com António Silva, Vasco Santana, António Lopes Ribeiro, Maria Matos, Ribeirinho, João Villaret, Alves da Cunha, mais alguns filmes de Manoel Oliveira; na prosa, Agustina Bessa Luís ou José Cardoso Pires; na música, a violoncelista Guilhermina Suggia, o pianista Sérgio Varela Cid, o tenor Tomás Alcaide, o guitarrista Carlos Paredes, as baladas de José Afonso, Bernardo Sassetti ou Rão Kyao; e, claro, o Fado, guitarristas e fadistas, com Amália Rodrigues à cabeça. Tirando isto pouco mais temos, infelizmente, de que nos possamos orgulhar na concertação mundial das nações.


11- É sportinguista assumido. De onde veio esse "amor"?
De pequenino, pois o meu pai fez-me sócio do Sporting Clube de Portugal um dia depois de ter nascido, pois fui dado à luz a um Domingo. Mais tarde a família foi viver para Cascais e eu deixei de ser sócio. Por volta dos meus dezasseis anos comecei a ler os estatutos do clube e percebi então por que não poderia escolher outro, dado que eles consagram muitos dos valores essenciais que norteiam a minha maneira de estar na vida — basta referir que naqueles tempos, para se ser sócio do SCP, era necessário ter-se o certificado de registo criminal limpo. Recuperei então a condição de sócio, já não por vontade paternal, mas por opção pessoal, até aos dias de hoje, podendo assim orgulhar-me de ser sportinguista a dobrar!