Cultura Activa

Entrevistas a várias personalidades ligadas à cultura
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Thursday, May 6, 2010

Jorge Moniz


Jorge Moniz domina desde o piano à bateria. É um músico com uma vasta formação nas melhores escolas de música do país. Actualmente está ligado ao ensino musical e ao seu Quarteto musical.Em 2005 estava num projecto que recebeu o prémio de melhor disco jazz português do ano.Um músico com grande formação e vontade de deixar o seu legado aos estudantes.


1- Iniciou o contacto com a música desde muito cedo. De onde veio esse gosto pela música? E porquê o piano?
Sim, desde muito cedo. O piano e a bateria andaram sempre em simultâneo. Entrei para a Academia de Amadores de Música para piano ao mesmo tempo que entrei para o Hot Clube para bateria. Antes tinha tido várias bandas de garagem como baterista.


2- Passou pelo Conservatório Nacional, Hot Club, Academia de Amadores de Música de Lisboa, na Escola Superior de Música e na Universidade Nova de Lisboa. Descreva-nos um pouco da sua passagem por cada um destes locais, e o que cada um deles o ajudou a complementar-se como músico e pessoa.
Todos esses locais serviram para me construir como músico. Na Academia e no Conservatório estudei piano com a professora Carla Seixas e bateria no Hot Clube com André Sousa Machado. Na Escola Supeior fiz o curso de Composição e na Universidade Nova o mestrado em Etnomusiclogia. Penso que todas estas abordagens se complementam e acho que isso se percebe no CD Deambulações.


3- Possui uma vasta formação musical que vai do piano à bateria. Qual é para si a importância da música na vida das pessoas no geral? E na sua vida?
A música faz parte do quotidiano de toda a gente. É impossível fazer o que quer que seja sem ter a música ao lado, independentemente do objectivo com está presente. No meu caso utilizo a música em duas perspectivas, uma profissional e outra lúdica. Uma tem implicações na outra e vice-versa. Nem sempre é fácil usufruir a música sem ter que pensar e teorizar sobre o que estou a ouvir.


4- Está ligado ao ensino musical. Como tem sido para si essa experiência?
Já é uma experiência com alguns anos, cerca de 12. Tem sido gratificante porque tenho acompanhado o percurso de vários alunos e é bom ver a forma como evoluem e tentar perceber até onde chegam. Através das suas dificuldades também aprendemos bastante, inclusive a perceber as nossas próprias limitações e obstáculos ao fazer música.


5- Como foi para si a sua participação no programa da RTP "Ouvir e Falar"?
Foi uma experiência única porque tive o privilégio de poder participar no programa com grandes músicos como o Nuno Ferreira e o Nelson Cascais, na altura ainda estudantes (éramos da mesma turma no Hot), e por ter contactado com uma referência para o jazz em Portugal como o foi Luiz Villas-Boas.


6- Em 2005 o cd do projecto onde estava inserido, "Estranha Natureza", ganhou o prémio de melhor disco jazz português. Esperava esse reconhecimento? Como viveu esse momento de consagração?
Não esperava nem deixava de esperar. Fi-lo de uma forma espontânea e sem pensar muito na crítica. Foi gratificante ver o trabalho reconhecido e foi muito bom para o meu grande amigo Hugo Alves, merecedor, sem dúvida, desse reconhecimento.


7- Ao longo da sua carreira musical tem cruzado vários estilos musicais. Qual é para si a melhor definição de "música", e qual o seu estilo musical preferido?
Sinceramente não tenho definição para música nem tenho estilo musical preferido. Ouço muito pop. Acho que o resultado é o cruzamento de tudo o que ouvimos e experimentamos. É uma mistura natural, acho.


8- Como vê a actual situação cultural do país? Que áreas destaca? E o que deverá ser feito para impulsionar essa mesma cultura?
Penso que estamos a viver a consequência da crise financeira que atravessamos. A cultura nestas situações é o primeiro alvo a abater e isso tem-se reflectido na escassez de espectáculos em alguns estilos de música, teatro, cinema, etc.


9- Fale-nos um pouco dos seus gostos culturais, nomeadamente na literatura, cinema, música, etc
Gosto muito de cinema e destaco dois realizadores: Woody Allen e Roman Polanski, Este último, autor do meu filme favorito (Por Favor Não Me Morda o Pescoço). Não aprofundo muito a literatura. Na música tenho que referir a minhas duas bandas de eleição, os Divine Comedy e os American Music Club e os seus dois líderes, ambos excelentes e talentosos compositores e escritores de canções: Neil Hannon e Mark Eitzel, respectivamente.


10- Que conselho daria a quem pretende iniciar os estudos na música? E a quem pretende iniciar a sua carreira?
Ir para uma boa escola. A música é uma actividade que exige muito esforço e persistência. Muitas vezes as pessoas não têm essa noção e desmotivam-se.




Sunday, April 25, 2010

Tiago Rebelo

Tiago Rebelo é um dos escritores do momento em Portugal. O seu livro "O Homem que sonhava ser Hitler" tem lhe valido vários elogios da crítica. Ao longo de vários anos Tiago Rebelo conciliou a sua profissão de jornalista ( está há 16 anos ligado à TVI) com a de escritor. Ao Cultura Activa explica-nos como é possível conciliar essas duas profissões e mostra-nos um pouco mais além do homem com uma carreira repleta de sucessos.




1- Nos últimos nove anos publicou quinze livros. Como é que concilia a sua profissão de jornalista com a de escritor? Qual delas lhe dá realmente mais satisfação?

Tenho as duas profissões, cada uma com o seu espaço. Como a de jornalista tem horários, a de escritor adapta-se, mas normalmente escrevo de noite. Quando se gosta arranja-se sempre tempo. Não prefiro verdadeiramente uma delas, gosto das duas.


2- A sua ligação à Rádio Renascença durou oito longos anos. Como foi para si participar nesse projecto?

Foi muito bom. A rádio dá muita experiência de comunicação, especialmente para quem vai trabalhar a seguir na televisão. Eu comecei na rádio e foi através dela que fiz algumas das reportagens de momentos históricos mundiais, como a Guerra do Golfo.


3- Está ligado à TVI há já dezasseis anos. Como tem sido a sua evolução como jornalista nessa estação televisiva? Tendo em conta o seu início de carreira e o momento actual.

São, de facto, muitos anos a trabalhar em televisão (também estive três anos na RTP) e representam uma evolução com a experiência acumulada, até porque a própria televisão também teve uma enorme evolução durante estes anos.


4- O seu novo livro, " O Homem que sonhava ser Hitler", fala de democracia e situações extremas. Do seu ponto de vista, como é que vê a actual democracia praticada em Portugal?

É uma democracia bastante pobre, com políticos de pouca qualidade e, muitos deles, com uma ética muito duvidosa. O meu livro reflecte esta avaliação do momento presente. Mas a situação também é reflexo de uma sociedade pouco exigente e pouco interventiva, que se limita a deixar o seu destino nas mãos desses políticos.



5- Como tem sido para si a vida de jornalismo? A nível pessoal, de experiências e vivências, e a nível profissional. Foi algo que sempre quis fazer?

Foi algo que eu sempre quis fazer e, embora seja uma profissão que também tem a sua rotina e as suas frustrações, dá-nos oportunidade de participar em acontecimentos como nenhuma outra.


6- É um escritor bastante versátil, escrevendo desde livros para crianças a questões sociais e humanas. Onde vai buscar a inspiração para chegar a tantos pontos opostos? Quais as suas influências?

Um escritor escreve sobre aquilo que conhece, caso contrário não teria nada para escrever. Aquilo que eu escrevo aborda os assuntos que, a cada momento, me entusiasmam. Quanto às histórias propriamente ditas, são fruto de um trabalho diário. Enquanto escrevo vou descobrindo o caminho e o desfecho dessas mesmas histórias.


7- Quais são os seus gostos culturais? Nomeadamente no cinema, música, literatura, etc?

De literatura, leio um pouco de tudo, de uma forma um pouco errante. Gosto de ler bocados de livros, às vezes só para ver como escrevem os outros autores. Também gosto de ler livros sem parar quando fico preso a eles. A música que mais ouço é a que dá na rádio, Mega FM, Comercial. Gosto particularmente de cinema e isso aliás, reflecte-se na minha forma de escrever, bastante visual.



8- Como vê o actual estado da cultura em Portugal? Que medidas tomaria para impulsionar a cultura?

Acho que a cultura em Portugal é pobre. O actual Primeiro-Ministro, no final do seu primeiro governo, admitiu que tinha deixado a cultura para trás, o que é lamentável, tanto mais porque tomou esse exemplo de auto-crítica dando a impressão de que era, para ele, o menos mau para mostrar uma certa humildade. Eu entendo que a cultura não deve ser subsídio-dependente, mas penso que deve ser protegida. As figuras da cultura estão sempre entre os principais embaixadores de todos os povos e uma sociedade que não tem uma cultura forte é uma sociedade atrasada e pobre. O cinema em Portugal não tem expressão, a música portuguesa quase não passa nas rádios, não existem verdadeiras indústrias destas artes. Não temos museus de referência e a literatura ainda é a que vai estando melhor, embora seja muito difícil um autor subsistir da escrita.


9- Que áreas culturais destaca em Portugal?

A literatura e a pintura vão tendo alguma projecção, mas muito pouca.



10- Se pudesse escolher uma pessoa para governar o país quem seria?

Não escolheria ninguém em particular. Infelizmente, os partidos não nos dão escolhas de grande qualidade e quando votamos devemos fazê-lo tendo em conta factores como os projectos políticos e os seus representantes. Não se pode esperar que um Primeiro-Ministro sozinho seja a solução de todos os problemas. Precisamos de muitos políticos de qualidade, tanto no governo como na oposição. E precisamos de uma sociedade que não pense que o país pode ficar entregue a meia-dúzia de políticos e que depois se queixe na mesa do café. Precisamos de uma sociedade que, quando acusa alguns políticos de serem vigaristas, depois não vá votar neles, argumentando que são vigaristas competentes.


11- Que conselho daria a quem pretende iniciar uma carreira de jornalismo?

É uma profissão muito exigente e só deve ir para ela quem se sentir mesmo com vocação. Hoje em dia é muito difícil entrar na profissão porque há pouca oferta de trabalho. Também por isso, não se ganha muito. Mas, a persistência é uma das maiores virtudes.



Saturday, April 3, 2010

Mila Ferreira


Mila Ferreira é cantora, actriz, advogada e praticante de ballet. Já trabalhou na rádio e na televisão. Mila é uma pessoa apaixonada pela comunicação, pela justiça e pela dança, sendo que o seu lado sonhador se une a todas as suas "profissões" e hobbies, permitindo-lhe fazer tudo com o máximo empenho e enorme qualidade. Uma grande cantora e uma grande mulher em entrevista ao blog Cultura Activa.



1- Desde muito pequena que canta, que a música faz parte de si. De onde vem esse desejo em cantar e pela música em geral?
Sim, sempre fez parte da minha vida desde a infância. Sempre brinquei aos festivais e cantei para os professores e colegas de escola. Penso que é de família. Quer o meu pai, quer o meu avô eram músicos amadores.


2- Além da música sempre teve uma profunda ligação com o Ballet, a Advocacia e a representação? Como concilia esses três gostos/profissões com a vida de cantora? Qual prefere e porquê?
Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Pela dança, porque além de voar a alma, também voa o corpo, o que é maravilhoso. Pelas outras todas, onde incluo também a apresentação de programas, porque, como costumo dizer, sou sobretudo uma comunicadora e que adora o que faz. Comunico através da voz falada ou cantada, através da palavra quando defendo pretensões jurídicas e comunico através do corpo, no caso do ballet. Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Umas coisas por um motivo, outras por outro.


3- Como foi para si ser chamada para uma audição na Valentim de Carvalho? Tendo em conta que era ainda tão jovem.
Foi muito interessante, porque eu tinha muita coragem e escrevi uma carta, referindo que gostaria de dar continuidade à minha carreira como cantora, a qual já tinha iniciado com as “Alegres Comadres”. Fui chamada pelo meu querido amigo Nuno Rodrigues que me fez um casting e fiquei escolhida para integrar a Banda do Casaco. Por ser tão jovem, o Nuno e a mulher deram-me guarida na sua casa até ficarem concluídas as gravações.


4- Como vê o estado actual da música em Portugal? Considera que foi mais dificil para si, naquele tempo, ter sucesso na música do que é actualmente?
A música está a passar uma fase muito boa em termos de criatividade, mas uma fase muito má em termos de apoios.
Antigamente era mais fácil, tinha-se mais carinho, admiração e respeito pela arte, pelo talento e por tudo o que respirava cultura. Agora há uma grande clivagem, por um lado, aquilo que é muito erudito e que ainda tem algum apoio, por outro, toda a restante música e mete-se tudo no mesmo saco, e não se dá a visibilidade necessária aquilo que vai saindo e que é realmente bom.
Antigamente tinha-se sucesso mais facilmente, porque também se tinha mais visibilidade.
Por outro lado, o facto de não existir regulamentação que proteja as obras e os seus autores e que permita downloads ilegais, leva a que em breve a música deixe de ser produzida, porque não se vende. Um mundo sem música é sempre um mundo mais pobre e isso as pessoas ainda não têm consciência.


5- Fale-nos um pouco do programa da TVI "Queridos Inimigos". Como foi para si o tempo que lá passou? E o "Made In Portugal", da RTP?
No programa "Queridos Inimigos" foram meses, dias, horas maravilhosas. Trabalhei com pessoas muito queridas, muito talentosas e profissionais de quem fiquei profundamente amiga. Agradeço muito a grande oportunidade que tive e todos os dias de felicidade que me proporcionaram.
No "Made In Portugal" foram momentos mágicos em que fiz, com toda a entrega e dedicação, aquilo que tanto amo: comunicar. Éramos uma equipa muito boa, harmoniosa e muito profissional!


6- De todos os sítios onde actuou, quais os que guarda mais carinho e porquê?
De todos por onde passei. Cada local tem uma história, uma magia própria. Adorei humanamente todas as experiências. Poderia cantar com mais ou menos condições, mas a verdade é que guardo grandes recordações das relações humanas que estabeleci. São momentos maravilhosos em que acabamos por receber sempre muito mais do que aquilo que damos. Embora tenha gostado de actuar em todos os locais, guardo com muito carinho as minhas actuações em Caldas da Rainha (a minha segunda terra).


7- Fale-nos de um momento pessoal e outro profissional que a tenham marcado em especial.

Pessoal, conhecer o meu marido.

Profissionalmente são tantas que é difícil escolher. De qualquer modo, sou da opinião que o melhor ainda está para vir, sobretudo porque ainda não lhes conheço o sabor. Gosto de saborear todos os momentos, doce e suavemente, para os reter durante muito mais tempo no meu interior.


8- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais a nível musical, cinema, literário, artes, etc.
Sou muito ecléctica. Na música gosto desde ópera (que canto), a pop, rock, enfim toda a música o que me faça sentir viva e me transmita boas sensações. Ao nível do cinema gosto do cinema americano, quanto ao drama e depois gosto de um cinema menos comercial, nomeadamente do cinema francês e do espanhol. Gosto de um cinema com menos efeitos especiais e com mais mensagem. Ao nível da literatura, gosto de poesia, romance, mas, sobretudo, de livros documento, seja biográfico seja histórico.


9- Qual a sua opinião sobre o estado actual da cultura em Portugal? Que áreas destaca? O que deveria mudar?
Quanto a cultura, estamos um pouco mal. Ainda não tomámos consciência de que a alma também precisa ser alimentada e que sem cultura as pessoas murcham interiormente. Devia mudar-se, sobretudo, a visão acerca da importância que lhe é dada e, em atenção a essa importância, dar-lhe todo o apoio que a cultura merece.


10 -A sua carreira musical é plena de sucessos. Que momento é que destaca como tendo sido o mais satisfatório da sua carreira musical?

A fase em gravei o meu primeiro disco, foi uma sensação muito bonita. E depois sempre que edito um novo disco. Quanto ao “Vem Voar”, fiquei muito feliz porque acho que consegui um pouco daquilo que pretendia: tocar o coração das pessoas nem que seja só um pouquinho.



11- É um exemplo de uma pessoa multifacetada e com sucesso em diversas áreas. Que conselho/os daria a quem pretende ter sucesso profissional, seja na música, escola ou outro projecto?

Sou uma pessoa de facto bastante polivalente. Quanto ao sucesso, agradeço as suas palavras. O meu conselho é que as pessoas corram atrás do seu sonho e daquilo que verdadeiramente gostam de fazer. Também digo que devem ter alguma precaução e que não devem ter ilusões, pois, a arte em particular, é uma actividade cíclica e isso acaba por ter reflexos do ponto de vista emocional. Actualmente também não é uma actividade tão compensadora como à partida as pessoas que estão de fora possam pensar. Se gostam realmente do que fazem devem estar dispostas a viver as alegrias, mas, também preparar-se para os momentos mais difíceis e duros.




Wednesday, March 24, 2010

João Braga


João Braga é um dos melhores fadistas nacionais. Foi impulsionador da nova geração de fadistas, dando visibilidade a quem merecia.
O sportinguista de alma concede ao Cultura Activa uma grande entrevista, onde podemos ficar a conhecer melhor um dos grandes nomes do nosso país.

1- Começou desde muito cedo a cantar fado em Cascais e Lisboa. De onde surgiu este seu interesse pela música, nomeadamente pelo fado?
A minha atracção pela música aconteceu, creio, antes mesmo de começar a andar e ainda não tinha completado quatro anos dei-me conta de que conseguia cantar. O gosto pelo Fado só muito mais tarde, em 1962, é que me começou a invadir, por influência de um disco de Amália, o do “busto”, embora já gostasse de a ouvir interpretar outros géneros musicais e me entusiasmasse bastante com o som das guitarras. Esta aproximação ao Fado, numa idade algo serôdia para os “catedráticos” do género, que apenas concedem o estatuto de fadista a quem já cantava no colo da mãezinha, reforça a minha convicção de que para escutar o Fado, perceber a sua essência e, ainda mais, para o cantar, é preciso já ter vivido uns anos — o Fado é definitivamente, na minha opinião, uma canção adulta.


2- Como foi para si a estreia na televisão, num programa da RTP chamado "Alerta Está"? Como viveu esse momento e qual era a sua visão nessa altura perante um possível futuro de sucesso?
Nesse ano de 1967 começaram a acontecer-me muitas coisas ao mesmo tempo: saíram os meus primeiros discos, fui para a tropa, estreei-me nesse programa na RTP, e tudo isto no meio de um sucesso tremendo que não me modificou absolutamente nada, pois achei isso tudo natural.


3- Por que razão desistiu do curso de Direito?
Porque preferi a carreira artística à jurídica, e as duas não eram compatíveis, dada a forma intensa com que passei a exercer a primeira.


4- Como foi para si a participação no festival da canção?
Encarei todo esse episódio como uma experiência, mais ainda, uma aventura. O tema que me calhou atraiu-me sobretudo pelas palavras; o poema de Rita Olivais, “Amor de Raiz”, era muito bonito, foi por aí que aceitei participar e ainda bem que o fiz, porque o ambiente que encontrei era muito diferente daquele a que estava acostumado nos meios fadistas, mais aberto, mais desafiador, mais profissional.


5- Foi obrigado a ir para Madrid em 1974. Qual foi a razão que o forçou a sair do país e como era a sua visão perante tal facto?
Ainda hoje estou para saber por que me quiseram prender, a única coisa que sei a esse respeito é que Otelo Saraiva de Carvalho, então comandante da polícia política que substituiu a PIDE, o COPCON, assinou um mandato de captura em meu nome, mas com o espaço do motivo em branco, o que autorizava qualquer autoridade ou a pessoa a quem o documento fosse parar a meter lá o que bem entendessem. Quando regressei não obtive informação alguma sobre a causa de tal diligência, a não ser um pedido de desculpas, em nome dos militares, do Senhor Coronel Almeida e Castro, um homem alto, de porte digno e maneiras a condizer, quando regressado do exílio fui convocado para me dirigir ao 7º andar de um edifício na Avenida da Ilha da Madeira, ao Restelo, onde funcionavam os Serviços de Apoio ao Conselho da Revolução, para resolver a minha situação e aceitar a devolução de cartas, fotografias com familiares ou amigos e outros documentos privados que haviam subtraído da minha casa na Rua D. João V, nº 16, em Lisboa, quando as forças do COPCON, fuzileiros navais, se não estou em erro, juntamente com uns fulanos à paisana e braçadeiras do MDP/CDE, a invadiram derrubando a porta e levando tudo o que puderam, além da citada documentação pessoal: quadros a óleo, tapetes persas, loiças da Companhia das Índias, objectos em prata, garrafas de uísque, de conhaque francês, de vinho, de champanhe, e outras, discos, aparelhagem de hi-fi, molduras, peças de vestuário, águas-de-colónia, monitores de televisão, algumas jóias, um faqueiro antigo, enfim, tudo o que puderam na ocasião transportar, e que nunca mais voltei a pôr a vista em cima.


6- O seu CD "Cantar ao Fado" foi considerado por si como o melhor da sua carreira, por que razão, visto que editou imensos álbuns e EP's de enorme qualidade?
Era na altura a minha opinião, mas olhando hoje para os que fiz, realço igualmente o primeiro de todos, “É Tão Bom Cantar o Fado” (1967), “João Braga Canta António Calém”, de 1971, “Do João Braga para a Amália” (1984, o primeiro que continha poemas musicados por mim), Portugal” (1985), “Terra de Fados” (1990) e “Fado Fado” (1997), além do que saiu no ano passado, “Fado Nosso”. Embora hoje já não os cante daquela maneira, “Cantar ao Fado” continha quatro temas que gostei muito da forma como saíram no disco, “Ternura” (David Mourão-Ferreira), “Um Carnaval” (Alexandre O’Neill), “Bem Sei” (Fernando Pessoa), todos musicados por mim, e “Amália” (Manuel Alegre), com música de José Fontes Rocha.


7- De todos os países onde actuou, qual foi o/os que mais o marcou?
As actuações mais marcantes da minha carreira, fora de Portugal, foram: Barcelona (1970), Londres e Rio de Janeiro (ambas em 1977), Estrasburgo (1989), Nova Iorque (1998), Cidade do México (1999), Malmöe e Arzila (ambas em 2001), Recife (2007), e no nosso país, destaco as do Zip Zip (1969), uma no São Luiz (1991), outra no Teatro Nacional de São Carlos (1992, concerto dos 25 anos de carreira), na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (2006) e outra ainda em Vila Nova de Cerveira (2007). Em termos absolutos foi uma em Vigo, por ocasião do prestigiado Festival Are-More de 2003, no Teatro Cine-Fraga, com cinco chamadas ao palco, no final, as últimas duas com pateada, o que nunca me havia acontecido — é uma sensação absolutamente arrepiante!


8- Como vê o actual estado do fado?
Orgulho-me da contribuição dada em prol da nova geração de fadistas quando, a partir de 1990, comecei a dar visibilidade a novas vozes, por entender que elas o mereciam. Considero que essa estratégia de apostar nos mais novos foi muito bem sucedida e creio que o Fado do tempo que passa se espelha na alta qualidade que a maior parte dos jovens que fui convidando acabou por demonstrar.


9- Qual é a sua opinião sobre o actual estado da cultura em Portugal? O que deve ser alterado?
Infelizmente a minha opinião está muito longe de ser favorável sobre essa importante área da sociedade portuguesa. Porque se já era uma desgraça manter-se a população portuguesa no obscurantismo cultural em que se encontrava há quarenta anos, é inelutavelmente pior a instilação de uma acultura pimba em que a mergulharam desde então. Alguma coisa tem de ser feita e quanto mais depressa melhor, começando pelo aperfeiçoamento qualitativo do Ensino e acabando com a subserviência quase caprina em relação a tudo quanto as multinacionais da cultura nos impingem.


10- Que áreas culturais destaca em Portugal e quais as suas preferidas? Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais na música, literatura, cinema, etc.
Acima de todas a Poesia, porque Portugal é um país de poetas, creio inclusive que é a única onde, em termos de escola, podemos pedir meças a qualquer outro, incluindo a Irlanda, com uma quantidade de vultos de invulgar qualidade, a mesma que se pode constatar nas obras de Pessoa, Camões, Florbela, Régio, Antero, Pascoaes, Homem de Mello, Sophia, Torga, e outros mais. Noutras áreas, a minha preferência vai para artistas como Vieira da Silva (morreu francesa), Maria João Pires (em vias de se tornar brasileira), Paula Rego (em Inglaterra consideram-na inglesa), Amadeu Sousa Cardoso (francês, para muitos), Pomar, Maluda; algum cinema que se fez entre os anos 30 e 50, com António Silva, Vasco Santana, António Lopes Ribeiro, Maria Matos, Ribeirinho, João Villaret, Alves da Cunha, mais alguns filmes de Manoel Oliveira; na prosa, Agustina Bessa Luís ou José Cardoso Pires; na música, a violoncelista Guilhermina Suggia, o pianista Sérgio Varela Cid, o tenor Tomás Alcaide, o guitarrista Carlos Paredes, as baladas de José Afonso, Bernardo Sassetti ou Rão Kyao; e, claro, o Fado, guitarristas e fadistas, com Amália Rodrigues à cabeça. Tirando isto pouco mais temos, infelizmente, de que nos possamos orgulhar na concertação mundial das nações.


11- É sportinguista assumido. De onde veio esse "amor"?
De pequenino, pois o meu pai fez-me sócio do Sporting Clube de Portugal um dia depois de ter nascido, pois fui dado à luz a um Domingo. Mais tarde a família foi viver para Cascais e eu deixei de ser sócio. Por volta dos meus dezasseis anos comecei a ler os estatutos do clube e percebi então por que não poderia escolher outro, dado que eles consagram muitos dos valores essenciais que norteiam a minha maneira de estar na vida — basta referir que naqueles tempos, para se ser sócio do SCP, era necessário ter-se o certificado de registo criminal limpo. Recuperei então a condição de sócio, já não por vontade paternal, mas por opção pessoal, até aos dias de hoje, podendo assim orgulhar-me de ser sportinguista a dobrar!