Cultura Activa

Entrevistas a várias personalidades ligadas à cultura

Wednesday, March 10, 2010

Carlos Moura


Humorista, guionista e actor, Carlos Moura é um homem de várias funções. Faz assíduamente Stand Up Comedy e é director de conteúdos, nomeadamente do programa 5 para a meia noite.
Ao Cultura Activa, Carlos Moura mostrou-nos um pouco do homem por trás do comediante, sem esquecer também essa parte.



1- Sempre nos habituou ao seu humor tão natural. Suponho que seja preciso alguma inspiração. De onde surge essa inspiração e como cresceu em si o gosto pela comédia?
Fazer rir é fazer um pequeno milagre. O riso provoca alterações físicas nas pessoas - do ritmo cardíaco à adrenalina e muito mais. Como sempre gostei de comunicar, sempre me fascinei com a comédia, fosse com os filmes de Chaplin ou um qualquer anúnico palerma... Acho que desde miúdo sempre fui um palhacito... Quanto à inspiração, é simples: basta olhar à volta.


2- Além de comediante é também guionista e actor. Qual destas profissões é que mais o apaixona e porquê?
Cada uma delas tem as suas particularidades e sensibilidades, mas é em palco, com um microfone e a fazer comédia que me sinto em casa.


3- Qual é concretamente a sua relaçao com o programa "5 para a meia noite"? Esperava um sucesso tão grande por parte do programa?
Sou director de conteúdos, ou seja, decido previamente e também durante o directo o que deve acontecer no ecrã. Claro que isto é um processo global - não sou um ditador - e envolve a minha equipa de conteúdos, os apresentadores, a produção e a própria RTP. Eu acho que o sucesso do programa se deve a dois factores: primeiro, uma equipa genial que se esforça por fazer um programa diário sempre surpreendente e divertido, despretencioso... Outro, são os apresentadores, que se entregam de alma e coração a um projecto de baixo orçamento como este... e acreditem: só se faz com muito esforço e pessoas que se dedicam 12 a 14 horas por dia!



4- Fale-nos um pouco de um dos momentos mais marcantes da sua vida.
Houve vários, mas se tivesse que escolher, apostava no 1º Festival de Stand Up, em que participei e onde fiz também a minha primeira actuação. À minha frente, na plateia, estava Raúl Solnado, com quem tive a oportunidade de jantar a seguir, e que, sem querer, acabou por ser o meu padrinho da comédia... Foi, decididamente, uma noite que mudou a minha vida. Entrei no Festival para conhecer gente que gostasse de comédia e saí de lá a caminho da comédia profissional.


5- Fale-nos um pouco dos seus interesses culturais no geral.
Neste momento ando,infelizmente, a ouvir pouca coisa. As rádios nacionais aborrecem-me e não tenho iPod, por preguiça. Mas sempre que posso, adoro andar em pesquisa de coisas novas. Descobri agora, por exemplo, uma banda alemã de covers que são estupidamente geniais, os The Baseballs. Paralelemente, tenho alguns álbuns que já rodaram mil vezes, como o "Köln Concert" de Keith Jarret. Gosto de muita coisa, e variada. Acabei também de ler um dos melhores livros dos últimos tempos, "A Estrada". E gosto de espreitar livros de divulgação científica, como os de Carl Sagan e Richard Dawkins.Nos tempos livros, no entanto, aposto bastante em cinema. Sou um fã da sétima arte e adoro um bom filme. Gostei do "Avatar" mas ando louco para ver o "The Messenger"...


6- Do seu ponto de vista, que medidas é que deveriam ser tomadas para que a cultura se pudesse desenvolver em Portugal?
Abrir espaço aos novos talentos, deixarmos de lado as peneiras e apostar a sério na educação. Não se admite que existam salas de teatro remodeladas e pagas pela União Europeia que estão fechadas e que, para acolherem um espectáculo, cobrem alugueres diários de dois mil euros ou mais. Da mesma forma que não se admite que se fabriquem tantas estrelas e tão poucos artistas. E da mesma forma que não se entende que haja alunos do ensino superior que não sabem escrever português - isto revela que temos um sistema educativo de caca, e sem educação não há cultura. Precisamos que a malta nova saiba quem foi Bocage, Eça, Pessoa, e por aí fora. Estamos a tentar fazer telhados sem construir alicerces...


7- Como vê o estado actual da cultura em Portugal? Que áreas destaca?
Acho que temos muito que trabalhar... Anda aí muito boa gente e talentosa que merece um oportunidade para mostrar trabalho. De resto, estamos a ultrapassar aquela fase palerma da "cultura intelectual", em que queríamos ser um povo de burgueses. Temos que perceber que entretenimento ligeiro também é cultura, que precisamos conquistar plateias e público.


8- Se pudesse escolher, quem nomearia para governar portugal?
Decididamente, Belmiro de Azevedo. Nesta altura do campeonato, só um gestor a sério pode salvar a coisa. E ele tem provas dadas, quer se goste, quer não.


9- Que conselhos daria a quem quer fazer comédia ou entrar para a televisão? Como foi o seu percurso?
Que pensem bem. Grande parte das pessoas pensa na televisão e no mundo do espectáculo como um mundo de magia. O que é verdade, mas isso é para quem assiste. Os bastidores da realidade são de trabalho árduo e muita, muita irregularidade. É uma das áreas profissionais com maior instabilidade e com maiores exigências pessoais. Esqueçam a ideia de ter um horário de saída e um salário certinho, além de, a recibos verdes, esquecerem subsídios de férias e 13os... Ganha-se como em qualquer outra profissão mas é um trabalho de adrenalina.. e é isso que cativa. A comédia, ainda mais irregular, é desporto de alta competição, e exige trabalho todos os dias, a todas as horas... Se é isto que querem, avancem. Mas lembrem-se que os contos de fadas só acontecem com Tim Burton!



Saturday, March 6, 2010

Rui Sinel de Cordes


Rui Sinel de Cordes é uma das novas caras do humor nacional. Ousado e de jeito tresloucado, Rui tem inovado o género cómico praticado em Portugal. Percorrendo caminhos de loucura e insanidade, conseguimos uma entrevista que tem tanto de sério como de cómico. Não fossem as coisas sérias feitas de comédia.


1- Fez a licenciatura em Ciências da Comunicação e ligou-se desde cedo ao teatro e posteriormente ao stand up comedy. De onde vem esse seu jeito natural para a comédia?
Lembro-me dos meus pais serem fãs do Herman José, o que fez com que desde muito cedo (talvez até cedo demais para a minha idade) eu tivesse acesso ao humor dele. Devido a esta influência, com nove, dez anos eu já seguia tudo o que o Herman fazia. É curioso pensar que se hoje em dia sou uma pessoa muito selectiva em relação ao humor – não me rio com muita coisa – já na altura o era, porque recordo-me de rir imenso com as rábulas do Herman nos mais variados programas e não achar muita piada a quase mais nada.


2-Além da comédia, que géneros é que gostaria de representar/apresentar?
Sou uma pessoa de extremos e como tal, o género que mais aprecio paralelamente à comédia é o drama. Mas o drama profundo, não estou a falar de novelas onde raptam a namorada do protagonista e durante 10 episódio todos pensam que ela morreu, mas acabam no fim a viver felizes numa Quinta em Évora. Refiro-me a estórias que acabam mal, com filhos desaparecidos ou amores terminados bruscamente devido à morte de um dos amantes. O humor negro aproxima-se desse meu gosto, porque é comédia, mas não é propriamente alegre. No entanto, é-me bastante difícil imaginar-me a fazer outro registo que não este, porque não sou actor nem tenho ambições a tal.


3- Qual é concretamente a sua profissão e como foi o seu percurso até à televisão?
A minha profissão baseia-se em estar em casa a jogar PlayStation enquanto espero que o telefone toque para trabalhar. Felizmente, até ao momento, o telefone tem tocado e vão havendo pessoas que compreendem o meu estilo de humor e querem ver-me a fazê-lo. Considero que tive um percurso feliz, porque depois de fazer muita formação na área foram-me surgindo oportunidades para começar a trabalhar como guionista em Televisão, Rádio e Teatro, sendo que sempre acompanhei esse percurso com a minha actividade de stand-up comedian, que é o que realmente gosto de fazer. O “Preto No Branco” surge na sequência da minha vontade de fazer uma coisa minha, com um estilo de humor com o qual realmente me identifico, decisão essa que considero a mais feliz e correcta da minha vida. Quando se passa muito a tempo a escrever guiões para outros, limitando criativamente o cérebro e seguindo uma linha imposta por outros, chega-se a um ponto de falta de respeito e amor-próprio enquanto criador e pensador de humor. Todos os criadores, nas mais diversas áreas, que conseguiram inovar e romper com o sistema fizeram-no correndo riscos e desafiando as regras existentes. E o humor em Portugal ainda está muito preso ao domínio de pessoas com uma mente retrógrada, quadrada e obtusa.


4-Como vê a recepção ao seu projecto no São Jorge? Como tem sido a experiência?
Não é apenas um projecto meu, é também do Salvador Martinha e do Ricardo Vilão, sendo que contamos ainda com a ajuda de um convidado, todas as noites. Falando do São Jorge Comedy Club em si, têm sido noites de stand-up comedy a sério, como se fazem nos comedy clubs britânicos ou americanos, sendo que o público tem correspondido em número e em qualidade. Ou seja, não só esgotámos a lotação da sala nas três noites como sentimos que tivemos um público conhecedor do que ia ver e com vontade de se rir, o que nem sempre acontece e neste género e é essencial.


5-Fale-nos um pouco do seu novo programa na SIC Radical. De onde surgiu a sua inspiração?
“Gente Da Minha Terra” será um programa de 10 episódios de 25 minutos, onde vou falar sobre Portugal. Em cada episódio vou a uma região e falo sobre a sua história, costumes, tradições, personalidades e acontecimentos recentes. É um programa onde o meu estilo de humor irá estar bem presente, bem como a minha veia crítica sobre tudo o que me rodeia, neste caso, o meu país. É normal vermos programas sobre Portugal onde só se fala das coisas boas e eu há muito tempo que queria fazer completamente o inverso. Esse meu desejo aliou-se à vontade do Pedro Boucherie Mendes (Director dos canais temáticos SIC) em ter um programa sobre Portugal e aí está ele a estrear dia 10 de Março, pelas 22h15.


6- Qual é a sua opinião sobre o actual estado da cultura no nosso país? O que é que deve mudar?
A Cultura em Portugal, nomeadamente na área que me diz respeito, está entregue à capacidade de trabalho dos actores, encenadores e algumas produtoras. O investimento feito pelo Governo é praticamente inexistente, o que faz com que os outros agentes culturais tenham de se valer a si próprios. A mim, o que mais me custa na falta de apoio governamental não tem a ver com dinheiro, mas com a ausência de ideias e de preocupação em providenciar outro tipo de ajudas, no que toca à divulgação e promoção dos espectáculos existentes. Em 2009, levei a palco o espectáculo de stand-up comedy “Black Label”. Produzi, escrevi, interpretei e divulguei. É lamentável que não se possa exigir ao Ministério da Cultura que contribua com distribuição e afixação de cartazes e flyers ou mesmo com tempo de antena em qualquer um dos canais do estado. A mim, agrada-me a justiça do escrutínio exercido pelo público. Eu não acho bem que se dêem subsídios a peças sem pés nem cabeça que estão 15 dias em cena com meia dúzia de gatos pingados a ver. Não me incomoda ganhar aquilo que a bilheteira me diz que mereço. Incomoda-me sim, haver público que viria a um espectáculo meu, mas não veio porque não tomou conhecimento da sua existência.


7- Que áreas culturais é que destaca em Portugal?
As telenovelas e os programas com pessoas a caírem à água.


8- O que anda a ouvir/ler?
Com ou sem lançamentos de álbuns recentes, há quatro artistas/bandas que oiço sempre: Sam the Kid, Valete, Keane e John Mayer. Neste momento estou a ler “God Hates Us All” de Hank Moody – o livro da personagem da belíssima série “Californication”.


9- Quais são os seus comediantes preferidos?
Jim Jeffries, Frankie Boyle, Jimmy Carr, Ricky Gervais, Dave Attel, Daniel Tosh, Andrew Lawrence, sempre com o espírito de Bill Hicks bem presente.


10- Se pudesse escolher alguém para governar o país quem seria?
Alguém que não fosse corrupto, chantagista, manipulador e dominado pelo espírito Nazi. Mas há muito que me deixei de interessar por política. Está para aparecer o político que me faça ir recensear.


11- Que conselho daria a quem quer fazer comédia actualmente? Considera que a comédia se alterou nos últimos anos?
A comédia altera-se ano após ano, mas historicamente as contas fazem-se a 10 ou a 20 anos. Uma carreira no humor não é um sprint ou uma prova de 100 metros, é uma maratona. Eu tento mudar o humor português todos os dias e sinceramente sinto que o faço. É impressionante os emails e as provas de apoio que vou recebendo diariamente e a quantidade de pessoas que se mostram contentes por agora terem uma opção de humor que não existia em Portugal antigamente. Ultimamente tem aparecido outra alteração que muito me faz rir, que é o surgimento do humorista-intelectual. É o humorista que pensa que para ser respeitado em certos círculos tem de saber falar de cinema, de música e dizer que gosta de beber vinho tinto enquanto lê Proust. Obviamente que o resultado não se traduz nem num humorista nem num intelectual. Traduz-se num estúpido.
O melhor conselho que eu posso dar a quem quer fazer do humor vida, é que não aceite conselhos de ninguém. Descubra o seu estilo, aquilo que lhe agrada fazer, seja original e não oiça o que os outros dizem, porque só lhe vão trazer ruído. E que nunca duvide do seu talento, se de facto o tiver. Porque o humor em Portugal ainda é gerido de forma merceeira, uma vez que muitas vezes quem trabalha mais fá-lo devido a amizade do que propriamente a talento. Conheço pessoas que trabalham pouco e que dão dez a zero a outras que não têm mãos a medir. Mas isso acontece em todas as áreas.
Peço desculpa se não fui engraçado nesta entrevista. Mas acabei de ver a entrevista do Miguel Sousa Tavares ao Sócrates e estou sem sentido de humor.


Wednesday, March 3, 2010

Hugo d'Alte

Hugo Alexandre Cavalheiro d'Alte tirou o curso de Design de Comunicação na E.S.A.D. em Matosinhos. Já passou pela Holanda (Haia) e Espanha ( Barcelona). Actualmente encontra-se na Finlândia, em Helsínquia. É designer gráfico e tipógrafo freelancer na Finlândia. Ao Cultura Activa, Hugo d'Alte conta-nos uma história de vida, cheia de experiência e diversas visões culturais.


1- O Hugo sempre esteve muito ligado às artes. Estudou em vários países e desenvolveu sempre esse gosto. A que se deve esse seu interesse artístico?
Penso que se deve em grande parte ao ambiente em que cresci e às pessoas com quem convivi enquanto crescia.
Houve muita gente que me influenciou directa ou indirectamente a seguir este caminho, mas também acabei por
descobrir eventualmente que me dá bastante satisfação fazer este trabalho.


2- Tendo em conta que já viveu várias etapas no estrangeiro, como qualifica o processo de mudar de país por razões profissionais?
Eu fui primeiro estudar para fora e acabei por ficar. Não foi uma coisa pensada antes de partir. Também tive razões pessoais não regressar após os estudos.
A minha mulher é finlandesa, penso que é mais fácil para mim trabalhar aqui do que para ela encontrar trabalho em Portugal. É difícil trabalhar fora. Os nativos do país têm sempre vantagens linguísticas de integração em relação aos estrangeiros, mas pode ser uma experiência muito enriquecedora.


3- Além do design e da tipografia, que outras áreas culturais é que mais gosta?
Interessam-me todos os processos criativos, e encontro muitas vezes inspiração noutras
áreas criativas, fotografia, filme, musica, arquitectura, e mesmo em coisas ou temas que
não têm nada em comum com o design. Eu gosto de imagens, inspiram-me as imagens.


4- Como qualifica a actual cultura portuguesa?
É uma pergunta difícil porque estou fora de Portugal há quase 10 anos e imagino que tenha uma visão distorcida do que se passa em Portugal. Contudo, penso que há muitas coisas interessantes a acontecer. Se calhar a distribuição de eventos culturais deveria ser menos centralizada, fazia sentido.


5- De uma possível analogia cultural entre Portugal e Finlândia, o que destaca como sendo mais similar ou mais diferente?
O mais parecido talvez seja o problema de identidade e complexo de inferioridade. A Finlândia pertenceu à Suécia durante 700 anos, e a Russia sempre foi uma ameaça. Com Portugal penso que se passa o mesmo em relação a Espanha. O mais diferente... há diversas coisas que poderia mencionar, mas uma diferença que me parece relevante referir é a cultura de trabalho, os finlandeses são mais eficientes, mais metódicos.
Claro que faz diferença haver um sistema por trás que funciona também de uma maneira muito mais eficiente e facilita a vida as pessoas.
Os portugueses são também dos que mais tempo demoram a pagar a nível europeu, e isso chateia-me, é má política, eu as vezes espero meses para que clientes portugueses me paguem, e é preciso insistir bastante, isso é impensável na Finlândia por exemplo.


6- Acha que Portugal dá destaque suficiente aos artistas que se encontram a viver fora do nosso país?
Penso é bastante comum ignorar quem vive fora do país, até já me disseram que por viver há tantos anos fora que já nem era português...
Mas Portugal é uma país de emigrantes, a personalidade dos portugueses foi sendo moldada por 500 anos de emigração.


7- Como qualifica a evolução do design nos últimos anos em Portugal? E no mundo?
Penso que o design em Portugal tem evoluído bastante. Há muitas referências nacionais que vão sendo destacadas
na comunidade de designers internacional. Há nomes que vão sendo conhecidos, embora muitas vezes não haja consciência de que são portugueses. A produção criativa nacional acompanha o que se passa a nível internacional. Penso que a percepção da utilidade do design em termos práticos (para os compradores dos serviços do designer) está a evoluir no bom sentido.


8-Em Portugal, o que é que destaca na música, cinema, pintura, etc? Costuma consumir o produto Português?
Há muito talento em Portugal, mas Portugal não se sabe vender no estrangeiro, nem tendo Espanha como vizinha, ou se calhar por isso, porque ficamos na sombra dos espanhóis. Eu vou ouvindo musica portuguesa, sobretudo quando tenho saudades. Cinema e outras artes são mais difíceis de ter acesso fora de Portugal.


9-Que conselho/os dá a quem pretende iniciar a sua vida no estrangeiro, seja a nível escolar ou profissional?
Penso que é importante não esquecer as raízes e as diferenças culturais. A contribuição de uma pessoa, com um percurso diferente, é apreciada e pode ser uma vantagem num meio muito competitivo como é o design. Claro que também é importante prestar atenção às diferenças culturais, a aprender a lidar com isso. Não é fácil ser estrangeiro sobretudo durante muitos anos, acabamos por nos sentirmos estrangeiros no país de origem e de acolhimento...

Sunday, February 28, 2010

Fernanda Lapa

Fernanda Lapa é actriz e encenadora. Já foi bolseira na Polónia e professora na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Actualmente é Professora Catedrática na Universidade de Évora e dirije o Departamento de Artes Cénicas da Escola de Artes. É também Directora Artística do projecto "Escola de Mulheres - Oficina de Teatro". É um prazer imenso contar com a sua entrevista para esta semana.


1- Está ligada ao Teatro e à cultura desde sempre. De onde surgiu o seu gosto pelo Teatro?
Creio que vários factores terão contribuído para o meu gosto pelo Teatro, tanto como intérprete como encenadora. De alguns, tenho consciência e claras memórias, outros serão mais obscuros e inconscientes. Lembro-me de ter sido uma criança muito imaginativa e solitária. Até aos 8 anos fui filha única. Devorava, precocemente, todos os livros infantis que me ofereciam. Lia outros que não entendia muito bem, mas que que me alimentavam a imaginação. Criava outras histórias a partir das personagens dos livros que lia, mas o mais determinante creio terem sido as sessões infantis da Emissora Nacional. Não havia televisão e a rádio ocupava o seu espaço. Aos sábados, às 19h, eu sentava-me no chão encostada a um enorme rádio/picup e deliciava-me com as histórias dramatizadas por algumas vozes juvenis, que hoje são provectos actores… À mesma hora, o padeiro entregava lá em casa, num enorme cesto de verga, pãezinhos quentes, acabados de saír do forno. A minha mãe barrava uma carcaça com manteiga e açúcar amarelo ou com uma barra de chocolate e o meu êxtase era completo! Eu “via” as vozes que saíam do rádio, via os locais das acções, via-me a mim própria numa ou noutra personagem, quase sempre nas protagonistas…
De referir, também, que os meus pais me levavam muitas vezes ao Teatro. Não havia classificação etária e eu gostava sobretudo dos espectáculos dos adultos. Os infantis aborreciam-me um bocadinho! É engraçado reconhecer o mesmo nos meus netos, que muitas vezes adoram assistir aos meus ensaios ou aos dos pais.


2- Como foi para si a sua participação em "Deseja-se Mulher" de Almada Negreiros? Tendo em conta que estava no início da sua carreira e foi tão elogiada pelo próprio Almada Negreiros.
Quando me estreei no Deseja-se Mulher do Almada Negreiros, esse Ser que não deixava ninguém indiferente, vivi momentos de quase embriaguês. A minha capacidade crítica, face à concretização de um sonho que julgava impossível, ficou reduzida a zero. Acho que estava num estado de sonambulismo que me apagou as memórias. Só me lembro de, todas as noites, ouvir a voz do Mestre Almada gritando “que máscara” – era uma cena em que eu ficava sózinha em palco com o rosto apoiado nas mãos – e eu integrei definitivamente essa voz naquela cena! Quando 9 anos depois voltei a representar o mesmo papel, já o Almada tinha morrido, todas as noites ouvia a mesma voz!


3- Fale-nos um pouco da experiência que viveu na Polónia como bolseira.
Em 1978/79 a vida cultural e teatral da Polónia era riquíssima. Todas as cidades tinham vários Teatros, vários Centros Culturais, Orquestras, Coros, Ateliers de Artistas Plásticos, Revistas Culturais e de Crítica às Artes. A vida teatral era profundamente diversificada. Representavam-se os grandes Clássicos lado a lado com os autores contemporâneos, dava-se grande espaço à dramaturgia polaca e, em três grandes cidades – Varsóvia, Carcóvia e Wroclaw – residiam três grandes génios do Teatro – Szjaina, Kantor e Grotwski. Foi exaltante assistir aos seus espectáculos, conviver com dois deles, fazer um estágio com a Companhia do Grotowski. Depois, à chegada a Portugal, foi o balde de água fria! Os terríveis anos 80, de recessão social, de cortes enormes nos apoios à Cultura e, especialmente ao Teatro, foram uma travessia no deserto de que gosto pouco de lembrar!


4- De que modo é que vê o estado actual da cultura em Portugal? Que áreas é que evoluíram mais nos últimos anos?Acha que o estado deveria investir mais na cultura? Portugal ainda fica atrás do que se faz lá fora?
A Cultura portuguesa talvez seja uma das “mais valias” nacionais, e isto para utilizar uma linguagem mercantilista. É absurdo como ainda não foi entendido pelos sucessivos governos. Não é imediatamente rentável – este parece ser o seu pecado – no entanto, se acarinhada, o seu consumo interno seria enorme e a exportação garantida! Nunca se contabiliza o circuito económico que uma actividade cultural gera. No teatro, para se produzir um espectáculo, dá-se trabalho a profissionais de vários ramos, desde a carpintaria à costura, da publicidade à limpeza, da electricidade à cosmética, etc,etc. No cinema, a cadeia económica é ainda maior, e no geral a actividade cultural cria riqueza que é sistematicamente ignorada. Quase sempre quem recebe a menor parte do bolo é o próprio criador – “intermitente” – essa continua a ser a condição da maioria dos artistas e produtores culturais do nosso país. No entanto e, unicamente graças ao seu talento, à paixão desmedida que põe na profissão, o artista português tem uma qualidade que não é inferior à dos seus congéneres de qualquer parte do mundo e, quando por qualquer motivo rompe as barreiras deste pequeno País, aí está ele a ser admirado e, sobretudo, respeitado. E isso no cinema, na dança, na literatura, nas artes plásticas, na música etc,etc. Nem vale a pena lembrar uma Maria João Pires, um Saramago, uma Paula Rego, uma Vera Mantero, etc.etc.


5- O que é que mudou na representação em Portugal, nomeadamente teatro e televisão, nos últimos anos?
Portugal esteve durante muitos anos fechado para o mundo e a evolução nos vários campos das artes, evolução massiva, não de meia dúzia de criadores, faz-se com confrontos culturais, com Escolas de Arte bem equipadas, com condições materiais, com apetência e massa crítica de um público que também precisa de aprender a fruir espectáculos de qualidade. A televisão é uma escola e nem sempre de bom gosto. Escola para os profissionais, escola para o público. Forma gostos, muitas vezes para meu desgosto…e no entanto, só o facto de ser um dos maiores divulgadores da ficção em língua portuguesa me obriga a olhar para ela com algum respeito e, simultaneamente, alguma exigência, embora utópica. É que “serviço público” continua a ser, para mim, um conceito até agora esvaziado de sentido.


6- Fale-nos um pouco dos seus gostos culturais.
Sou capaz de devorar um livro que me apaixone. De saír em êxtase de um bom espectáculo. De ouvir música, clássica, jazz, contemporânea. De parar frente a uma peça de um artista plástico e ficar surpreendida porque ela fala comigo numa linguagem que eu julgava desconhecer. Sou capaz de chorar a ver um filme, não tanto pelo enredo, mas pela beleza de uma ou outra imagem. Mas também me acontece deliciar com um bom romance policial, divertir-me com uma série cómica na TV ou invejar a criatividade de tantos estilistas que me oferecem, só para regalo dos meus olhos, magníficas peças de roupa ou calçado…


7- O seu projecto Escola de Mulheres - Oficina de Teatro, é um dos projectos culturais dos últimos anos com maior destaque e importância para o país. Que conselho daria a quem pretende inovar a cultura e desenvolvê-la?
Obrigada pelo elogio que faz à Escola de Mulheres, Companhia de Teatro de que me orgulho ter ajudado a criar e que continuo, teimosamente, a ajudar a manter-se à tona, no total desprezo a que tem sido votada pelo Ministério da Cultura. Ao fim de 15 anos, conseguimos por fim ter um espaço de trabalho e apresentação dos nossos espectáculos e de outros companheiros. Devemo-lo unicamente à Direcção do Clube Estefânia, local de grande referência teatral desde os inícios do sec. XX e, a nós próprias! Não tivemos um cêntimo de ajuda para reabrirmos ao público, esta sala no coração de Lisboa, nem do Ministério, nem da Câmara, e foram muitos os gastos e o trabalho desenvolvido…considero que somos umas sobreviventes. Convidam-nos para co-produções com entidades culturais importantes, sou muitas vezes convidada para dirigir espectáculos em estruturas teatrais estatais, fui medalhada com o “mérito cultural” mas a indiferença do Estado face à Escola de Mulheres é recorrente. Que conselho posso eu dar a quem quer inovar e ajudar a desenvolver a Cultura? Talvez o melhor é tentar criar músculo, para resistir à apatia, à ignorância, aos lobbies, aos cantos das sereias e, sobretudo, à tentação de desistir.

Sunday, February 21, 2010

Joaquim Nicolau

Joaquim Nicolau é um conhecido actor português. Distinguido principalmente na televisão, Joaquim Nicolau participou em Malucos do Riso e foi também um dos pioneiros do teatro de máscaras em Portugal.


1- É presença assídua na televisão e cinema dos últimos anos. Além disso ainda faz teatro. De onde veio esse seu gosto pela representação?
Surgiu de forma espontânea, visto que no meu ambiente familiar havia uma disposição para encarar o teatro de uma forma natural e necessária. Não havia televisão, e o cinema era escasso visto viver numa aldeia do interior de Portugal. Tendo a companhia da rádio, era natural deixar-me cativar pela fantasia das radionovelas (que pena terem desaparecido!), onde aprendi a ouvir e a sonhar com o que de melhor havia na literatura portuguesa. O meu imaginário muito deve a esse género “teatral”.


2- Fazer drama ou comédia são situações completamente diferentes. Como se prepara para cada um deles?
Sendo realmente dois géneros diferentes, não têm diferença nenhuma na sua apresentação nem na sua preparação. Os métodos são os mesmos e deverão ser respeitados para que tenham êxito perante o público.


3- Como foi a sua experiência nos “Malucos do Riso”?
Foi bastante positiva, além de ter trabalhado com grandes profissionais, diverti-me muito e isso é de saudar, pois quando fazemos aquilo que gostamos e nos divertimos, significa que o espectador também se diverte. E creio que isso foi demonstrado pelas grandes audiências que esse programa teve ao longo de muitos anos.


4- É um dos impulsionadores do teatro de máscaras em Portugal. Como nasceu o grupo responsável por esse tipo de teatro em Portugal, “Meia Preta”, e como conseguiram cativar o público?
Tenho pena de não trabalhar mais assiduamente a “máscara”, sobretudo com um grande amigo meu e grande dinamizador do Teatro de Máscara e Comédia Del’Arte em Portugal – Filipe Crawford, com quem fui um dos co-fundadores do Grupo de Teatro Meia Preta. O Grupo surgiu devido a uma necessidade de haver um grupo que se dedicasse a este género de Teatro. A aceitação foi bastante forte, talvez por isso mesmo – por sermos originais. Creio que o público tem vindo a ser cativado não só pelo Filipe mas também por outros grupos que apareceram entretanto, como foi o caso do Teatro Meridional, do Nuno Pino Custódio e do André Gago.


5- Entre a televisão e o cinema, o que prefere e porquê?
Acima de tudo gosto de representar e interpretar, sendo ela em forma de teatro, cinema ou televisão. Mas admito que tenho um interesse particular na comunhão directa com o publico, e talvez por isso o teatro esteja em primeiro lugar, mas o cinema cativa-me bastante porque obedece a parâmetros tanto de produção como de criação que se aproximam muito da minha maneira de estar como actor.


6- De uma forma geral, descreva-nos um pouco da sua visão sobre a actual cultura em Portugal.
Creio que seria necessário mais empenho de todos nós, mas acima de tudo do Governo, pois como constantemente se vê nos vários orçamentos gerais de Estado, ao longo destes anos todos, a Cultura nunca chegou a 1%. Por aqui se pode avaliar a importância que nós nos damos. Como é possível uma sociedade melhorar se não tiver acesso à Cultura e à Educação de uma forma equitativa? Seria bom que nos questionássemos porque é que numa Europa tão vasta, nós somos um país com uma deficiência cultural tão grande em relação aos outros.



7- Que áreas culturais destacaria como as que estão numa melhor posição actualmente em Portugal?
Creio que todas, pois só o facto de enfrentarem tantas dificuldades para se poderem exprimir e expor, já as torna verdadeiramente vencedoras e dignas do nosso apreço, mesmo que por vezes nos esqueçamos delas.



8- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais.
Gosto de tudo o que tenha a ver com a sociedade onde me insiro. Os meus gostos culturais vão desde a música à gastronomia, desde o popular ao erudito, pois acima de tudo gosto da relação que o ser Humano estabelece com tudo o que o rodeia.