Cultura Activa

Entrevistas a várias personalidades ligadas à cultura

Wednesday, April 21, 2010

Katia Guerreiro

Katia Guerreiro é um dos grandes nomes do fado da actualidade. Através da sua encantadora e sentimental voz, a artista carrega e transmite o peso da cultura portuguesa além fronteiras. Com a sua música, Katia Guerreiro dá a conhecer o verdadeiro Portugal, aquele que possuí uma história vastíssima, repleta de vitórias e conquistas. O Fado está mais bonito, a cultura portuguesa também. O Cultura Activa fez várias perguntas à artista que está a fazer o mundo apaixonar-se por Portugal.



1- Nasceu na África do Sul e cresceu nos Açores. Qual é a sua actual ligação com cada um desses sítios?
Com a África do Sul tenho pouca ligação para além da ligação afectiva, pelo facto de lá ter nascido. Com os Açores mantenho uma estreita relação, já que esse é o meu refúgio para recuperar energias.


2- Apesar de ter seguido a carreira musical, tirou um curso exigente (medicina).
Como concilia as duas profissões? Qual delas lhe dá verdadeiramente mais prazer?
Concilio-as com bastante esforço físico, naturalmente. Neste momento estou mais calma na medicina, apesar de não ter parado totalmente de exercer a actividade.
Ambas me dão muito prazer e tenho grande dificuldade em responder a esta questão, pois cada uma ocupa lugar distinto na minha vida. Certo é que inicei as duas carreiras ao mesmo tempo, portanto lido com isto de forma muito natural.


3- De onde nasceu o seu gosto pela música e medicina?
Pela música, ainda muito nova nos Açores quando comecei a tocar Viola da Terra (instrumento típico da região). A partir daí percebi que tinha uma intuição musical, mas o canto aconteceu um pouco mais tarde, mas sem que eu alguma vez ambicionasse iniciar algum caminho na área.
Pela medicina foi quando aos 16 ou 17 anos de idade decidi enveredar pelo curso, para poder usar a minha vontade de ajudar os outros através da ciência. É uma paixão que me absorve.


4- Como conheceu o grande fadista João Braga e como nasceu essa relação de "padrinho - afilhada"?
O João Braga ligou-me exactamente no dia em que me formei em medicina para me convidar para participar no concerto que assinalava o 1º aniversário sobre a morte de Amália, por ter ouvido falar muito bem de mim e da minha voz. Fui a um ensaio em sua casa e no dia 6 de Outubro de 2000 pisei o palco do Coliseu, sendo este o momento de mudança total da minha vida.


5- Qual é a sua visão sobre o actual estado do Fado em Portugal? E no estrangeiro? Como é que os estrangeiros recebem o Fado?
O Fado em Portugal começa a ganhar mais força. Mas isto só acontece depois do estrangeiro mostrar um entusiasmo algo misterioso sobre esta música que envolve as mais profundas emoções e os mais íntimos sentimentos. Lá fora, públicos dos mais diversos países choram nos concertos e depois de se apaixonarem chegam a aprender a nossa língua para entenderem na íntegra o que esta música transmite. É muito curioso. Hoje o fado é um veículo muito importante da nossa cultura, da nossa língua e o melhor cartão de visita para sermos visitados. Por cá ainda não se aperceberam disto. E basta visitar casas de fado para nos capacitarmos disto. É a primeira coisa que os turistas querem fazer quando chegam a Lisboa.


6- Fale-nos um pouco das colaborações que teve com vários artistas como Ney Matogrosso, Rui Veloso e Dulce Pontes.
Têm acontecido de forma muito natural e são parcerias com muito sentido. Todos os artistas com que me tenho cruzado e cantado têm uma forma de estar nesta arte muito semelhante à minha.


7- De todos os países por onde já passou, qual é o que destaca como o que a recebeu melhor e principalmente à sua música?
Apesar de nunca ter sentido nenhum público hostil, desde o Brasil à nova Caledónia, ao Japão, Tunísia, Turquia,…, na verdade o meu público mais fiel é o público francês. Tenho assistido a gente a fazer 800 km para vir a concertos em diversos sítios de França.


8- Fale-nos um pouco do que gosta de ler, ouvir, etc. Preferencialmente português.
Acabo agora de ler “Nem só quem nos odeia” de Maria Rosa Colaço, estou a reler “Em nome da Terra” de Virgílio Ferreira, tenho ouvido muito Ricardo Ribeiro, um grande fadista desta nova era. Televisão vejo pouco.


9- Fale-nos de uma memória que tenha da sua infância.
Falo-vos das memórias de um mar único que me inspirou durante a infância e adolescência. O mar dos Açores com que acordava todos os dias e que trazia a certeza de um futuro virado para o mundo. Junto com esse mar, os amigos e os lugares que me ajudaram a crescer e que são ainda hoje âncora de emoções.


10- Como vê o actual estado da cultura portuguesa? O que alteraria?
A cultura está dependente do estado do nosso Estado. Mudaria essencialmente a quantidade e qualidade de ferramentas atribuídas ao Ministério da Cultura e ao Instituto Camões que tantas vezes deixa de apoiar por falta de meios.


11- Que áreas destaca na cultura portuguesa?
As artes plásticas estão em grande ascensão, novos artistas já com enorme destaque internacional como Joana Vasconcelos, Adriana Molder. Na música mais uma vez destaco o Fado de que me orgulho tanto de fazer parte. O cinema está em alta, e os nossos realizadores e actores começam a ofertar-nos com produções de alta qualidade.


12- O que é que o futuro próximo lhe reserva a nível profissional?
Concertos em sítios novos para mim como Israel, África do Sul, Pólo Norte, uma tournée com a Orquestra da Normandia a começar já em Maio, uma tournée na Noruega em Novembro, e concertos um pouco por Portugal, que terminarão com 2 concertos em Lisboa, no cinema São Jorge.


Sunday, April 18, 2010

Paulo Querido


Paulo Querido é jornalista, consultor de new media e empreendedor web. Ao longo dos últimos anos trabalhou para o Jornal Expresso e a Gazeta dos Desportos. A sua carreira fica marcada por vários sucessos, tanto a nível de inovação, como de trabalho de pesquisa.
Actualmente é consultor e um jornalista dos "novos tempos", completamente confiante quanto às novas tecnologias. Ao Cultura Activa, Paulo Querido falou do passado, do presente e do futuro. Mais uma entrevista de orgulho para este blog.


1- De onde surgiu o seu interesse pelo jornalismo? E pelas novas tecnologias?
Eu não tinha propriamente um interesse específico no jornalismo. Surgiu-me como uma hipótese de trabalho preferencial, uma vez que tinha a ver com escrita. Eu treinava muito a escrita, quando adolescente. Trabalhei pela primeira vez num jornal em 1978. Era "A Nação" e, entre outros, conheci lá o Carlos Pinto Coelho e o José Eduardo Moniz. Mas eu era então estafeta -- pau para toda a obra dentro de uma redacção. Publiquei aí os meus 2 primeiros artigos pela mão do editor de Cultura, que era o João Alves da Costa. Mas só fui jornalista-estagiário dois anos depois, na Gazeta dos Desportos.
Já com as novas tecnologias foi diferente. Comecei por ter aversão, ainda jovem, mas um anúncio no extinto Se7e -- Sinclair, o poder do computador ao seu alcance -- intrigou-me. Comprei um Spectrum e percebi de imediato o poder que a informática iria ter sobre a informação, a minha área. Nunca mais parei de aprofundar conhecimentos.



2- Exerceu durante muitos anos a profissão de jornalista, sendo actualmente consultor. De todo o seu percurso profissional, que momento destaca como o que lhe deu maior satisfação pessoal?
Não consigo isolar um, mas cinco. E não conto os prémios, que são sempre momentos de satisfação.
Na Gazeta dos Desportos, como em todos os jornais, fazíamos as classificações do futebol à mão, com uma calculadora perto. Eu e um amigo escrevemos um programa em BASIC que reduziu essa tarefa de 3 a 4 horas para menos de 30 minutos. Isto passou-se no início da década de 80.
Ainda no Diário Popular, uma reportagem minha que foi manchete, sobre um miúdo baleado enquanto brincava, levou o então Primeiro Ministro Cavaco Silva a chamar-nos aos dois -- a mim e ao miúdo -- a São Bento. Cavaco Silva interessou-se pela história e quis ajudar o miúdo de alguma forma. Eu fui por arrasto, claro. A satisfação esteve em ver a cara de feliz do rapaz quando recebeu a prenda do PM.
Já no Expresso, fiz uma entrevista a um velejador português em pleno Oceano Pacífico -- João Cabeçadas -- usando a CompuServe, uma das redes comerciais que erntão proporcionavam alguns serviços em cima da Internet. Um colega -- o Norberto Santos, então da Lusa e nosso colaborador -- ficou fascinado com a CompuServe porque permitia acesso aos jogos e classificações da NBA, que ele cobria para o Expresso; habitualmente só tinha informação 2 dias depois, e de forma irregular -- dependia do tráfego que circulasse entre agências, quando a linha era ocupada por muito noticiário a NBA ficava para trás. Nesse tempo as linhas por onde circulavam as notícias eram poucas e muito limitadas. O Norberto e eu fizemos um brilharete e o Expresso passou a dar regulamente e sem problemas os resultados da NBA. E depressa passámos a recolher mais informação desportiva por ali.
Outro momento alto no Expresso: introduzi no jornal a infografia feita por computador. Fomos percursores no caderno de Desporto. Chegámos a ter capas com infografias, produzidas exclusivamente em computador (usava o CorelDRAW! sobretudo). Não continuei porque o meu interesse era apenas o de abrir as portas para a inovação; o Expresso contrataria mais tarde infografistas, além de ter formado alguns.
E o quinto momento alto: quando, no Público, há cerca de um ano, o António Granado e o José Manuel Fernandes aceitaram a minha proposta para um dossiê total sobre as eleições. O dossiê tinha tudo, desde os resultados das sondagens até à avaliação das citações dos candidatos, com os resultados em gráficos, até à recolha das notícias sobre as eleições, produzidas quer pelo Público quer pelos outros jornais (até hoje nenhum jornal português teve coragem de fazer sistematicamente links para o noticiário dos concorrentes), até à recolha dos blogues e das redes sociais.

3- Como vê a situação actual do jornalismo em Portugal? Quais são as principais diferenças desde que iniciou a sua actividade profissional?
O jornalismo atravessa um momento de desorientação em Portugal, como de resto em praticamente todo o mundo. Essa desorientação prende-se com a economia da actividade, em primeiro lugar, mas também com o propósito da profissão, que tem de acompanhar a situação das novas "audiências".
Noto 3 grandes diferenças para o meu tempo. 1: os jornalistas são hoje em geral melhor formados em termos académicos. 2: O acesso à profissão está mais difícil: é preciso cumprir períodos de estágio não remunerado longos. 3: a investigação é hoje mais difícil de efectuar, sendo que se pede ao jornalista um ritmo de produção que não se compagina com aprofundar as diligências inerentes à investigação.



4- Como define a actual situação cultural de Portugal? O que faria para impulsionar a cultura?
Defino-a como adequada, ou talvez até sobre-dimensionada para o país que somos, com um excesso de oferta. Só públicos sensibilizados se tornam em consumidores culturais, pelo que eu, sendo poder, investiria na educação, formação e sensibilização desde o jardim de infância. Mas admito que a minha seja uma perspectiva demasiado banal do assunto, que não é propriamente dos que mais me interessam.


5- Se pudesse escolher uma pessoa para governar Portugal, quem seria?
José Sócrates. Ainda.


6- Fale-nos um pouco dos seus gostos culturais, nomeadamente no cinema, literatura, música, etc
Sou um tanto ecléctico. No cinema é verdade que já passei a fase intelectual e hoje prefiro as produções comerciais. Aprecio os actores e realizadores americanos e sigo algumas carreiras. Da literatura estou um pouco distante agora. Leio sobretudo livros de não-literatura: investigação, pesquisa, tecnologia. O mais perto da literatura que ando, é quando leio alguma biografia. O romance nunca foi o meu forte -- exceto a ficção científica, que devorei em larga escala até há uns anos atrás. Na música o meu ecletismo chega a ser doloroso :) Gosto de rock, hard-rock e rock sinfónico dos anos 70-80, mastigo alguma pop, tendo a ouvir mais música clássica ultimamente (já venho tarde para um sistematização de autores, vou apreciando) -- mas fã, a música a que chamo minha, é o jazz, são os blues, e é a pop electrónica.


7- Que área cultural destaca em Portugal?
A principal área cultural em Portugal é a cultura popular, que se desenvolve fora dos principais eixos comunicacionais em que giram as elites, que a consideram muito justamente desagradável. Contudo, ela é a mais pujante actividade, sendo tão forte que já cativou recursos antes dedicados às áreas para elites.
A cultura popular não fornecerá obra de relevo, claro. Mas ao menos alicercou uma actividade industrial que fomenta algum emprego cultural. E as áreas elitistas, por alguma razão que desconheço, também não têm produzido nada que jeito tenha.


8- A nível jornalístico, quais as grandes diferenças para si entre Portugal e o resto da Europa (França, Alemanha, Reino Unido, Itália). Portugal fica atrás do resto dos países?
Penso que falta a Portugal a massa crítica capaz de justificar a manutenção de um jornalismo de qualidade ao nível da Alemanha e do Reino Unido. Estou demasiado distante do dia a dia dos outros países para me atrever a uma opinião, por simples que seja.



9- Muito do seu trabalho foi desenvolvido à volta da internet. Como vê actual a importância da internet? E para o futuro, onde podemos chegar a nível de comunicação?
A importância da Internet é mensurável de 2 formas. Pelo destaque que obtém na sociedade, visto através do peso nos media: neste aspecto, tenderá a diminuir de importância à medida que se vulgariza. Quanto à importância que tem para as nossas vidas, tem vindo a aumentar e vai continuar. A diferença é que dentro de um par de anos deixaremos de falar dela como o temos feito: passará a estar no mesmo patamar que a rede telefónica ou a rede viária.
Para o futuro breve, teremos os objectos ligados: o meu frigorífico ligado à minha conta no supermercado, o meu automóvel ligado
aos circuitos das estradas e do estacionamento. Mais à frente os objectos comunicarão com cada vez maior autonomia.

Wednesday, April 14, 2010

Ana Free


É jovem, licenciada em Economia, um dos nomes portugueses mais conhecidos da actualidade no mundo da música, uma simpatia imensa e uma lutadora. A juntar a isto tudo ainda sabe falar inúmeras línguas, tal como o Grego! Ficou conhecida pelos seus videos no youtube, onde aparecia a tocar guitarra e a cantar. É cantora e chama-se Ana Free. É com grande prazer do Cultura Activa que é a próxima entrevistada.



1- Começou a compôr e a tocar desde que era muito jovem. De onde veio a sua paixão pela música? Como é para si o processo de criar música? É algo natural?
É verdade que comecei a tocar guitarra muito cedo. Foi o meu pai que me ensinou os meus primeiros acordes e desde então nunca olhei para trás. Tenho uma paixão enorme pela vida e por viver, não só a música. Normalmente, o processo de criar é super pessoal se estiver a escrever sozinha, se colaborar com outros artistas torna-se um processo mais mexido e mais aberto a ideias e mudanças. Inspiro-me facilmente em muitas coisas diferentes. Normalmente, só consigo escrever bem à noite ou no estúdio, mas às vezes preciso de me distanciar das gravações. A maior parte das minhas músicas são inspiradas pelas minhas próprias experiências, ou pessoas que fazem ou já fizeram parte da minha vida. São raras as vezes em que escrevo do ponto de vista de outra pessoa, mas também acontece. A música “The Rain” por exemplo, não é autobiográfica. É uma música que simplesmente foi escrita a partir da minha imaginação e de histórias contadas. De qualquer maneira, é sempre algo muito natural e acredito que nunca se deve forçar uma música.


2- É licenciada em Economia. Quais os seus objectivos profissionais nessa área, tendo em conta que possuí este curso?
Tirei o curso de Economia porque gosto imenso de estudar e aprender. Não queria faltar à experiência de ir para a faculdade! Decidi que gostava de Economia e portanto foi uma decisão fácil. Não tenho propriamente objectivos profissionais com respeito a isso, simplesmente gosto de conseguir pensar como economista e saber que tenho um plano B. Talvez gostava de conciliar as duas áreas de música e economia um dia!


3- Como foi para si a primeira vez que actuou ao vivo na televisão? Esperava vir a ter tanto sucesso?
A primeira vez que actuei ao vivo na televisão estava muito nervosa, foi um momento importante para mim. Lembro-me de preparar a música e de que simplesmente não me calava por causa dos nervos e do calor intenso do verão! Foi bastante cómico agora que olho para trás e penso nesse dia. Estava super orgulhosa, e surpreendida com a magnitude da reacção do público.


4- Cresceu em Cascais, mas sempre teve uma estreita ligação com o Reino Unido. Como foi a sua infância? Os seus familiares apoiavam-na na decisão de seguir uma carreira musical?
Tive uma infância mesmo feliz, cheia de amor e carinho. Os meus pais e o meu irmão são pessoas únicas, e sem a minha família ao meu lado, nada disto seria completo. Sempre me apoiaram, e sempre há de ser assim penso eu. Os meus avós também tiveram um impacto enorme na minha vida, e por isso estou muito grata. Sou muito sortuda, e quero que eles saibam que são extremamente importantes para mim.


5- Como é para si ser tão acarinhada pela internet, tendo em conta que era uma artista desconhecida e que gradualmente foi ganhando inúmeros fãs. Como é realmente sentir que por mérito se está a ganhar sucesso?

A internet tem várias vantagens. Dá-me a oportunidade de partilhar o meu trabalho e as minhas aventuras com o resto do mundo on-line, e como a internet não tem barreiras, consigo partilhar as minhas experiências e a minha música com pessoas em sítios totalmente diferentes e espalhadas por todo o mundo. Não é a internet que me tem acarinhado, são os fãs, sem dúvida! Claro que o apoio dos fãs é sempre muito bom de sentir, e para mim, os fãs são o mais importante.



6- Conhece duas realidades culturais diferentes, a de Portugal e a do Reino Unido. A nível de apoios para a cultura e de oportunidades, quais as principais diferenças entre os dois países?
Eu não noto uma diferença enorme em termos culturais. No Reino Unido há festivais como em Portugal, há procura para música de alta qualidade e a estrutura de promoção e circuitos de bandas é praticamente igual. Sinto porém que existe muito mais competição no Reino Unido, numa escala maior, porque a população também é maior. O apoio dos média (rádio, imprensa etc) é muito mais acessivel em Portugal, e nesse sentido, Portugal está muito mais à frente, e muito mais aberto à ideia de passar músicas de artistas pouco conhecidos numa escala nacional.


7- Qual a origem do nome "Free"?
Quando decidi pôr os meus vídeos no YouTube, tive que inventar um nome para a conta. Eu sabia que o nome que iria escolher era o nome que iria colar, portanto decidi encontrar qualquer coisa que desse para pronunciar em todos os cantos do mundo, e com o qual me identificasse. 'Free' é uma palavra que aparece muitas vezes nas minhas músicas, e nos meus poemas e textos. É um conceito importante para mim, não sei porquê. Na altura não foi uma escolha muito consciente, mas agora estou muito contente por ter escolhido algo que significa muito para mim.


8- É conhecida por falar várias línguas. Porquê o interesse na lingua Grega?
Não sei! Adoro linguas, é verdade. Mas tenho uma paixão pela lingua Grega e consigo falar bem, ter conversas, ler e escrever um pouco. É uma lingua única, e quando vou para a Grécia, também me sinto em casa. É estranho. Comecei a aprender Grego no meu primeiro ano da faculdade, depois de aprender umas frases e palavras (e não, as primeiras não foram nada de palavrões!) e uma das minhas melhores amigas é Grega. Ironicamente, ela fala-me sempre em Inglês!


9- Que áreas culturais destaca em Portugal como as que se encontram em melhor posição? Se pudesse fazer algo para impulsionar a cultura, o que faria?
Honestamente, acho que Portugal tem uma cultura de gastronomia fascinante. A comida portuguesa é tao boa, e há tantas pessoas do estrangeiro que me têm dito o mesmo. Acho que é uma área cultural que continua a reinventar-se todos os anos. Os Portugueses também têm gostos diversos em termos de gastronomia. É optimo ter escolhas. Acho que a cultura da música ganha mais movimento na primavera e no verão, com as estações dos festivais, o ritmo das férias e a felicidade que trás o sol. Sinto que não posso comentar na cultura das artes por exemplo, porque não estou muito inserida nesse meio. Eu acho que para impulsionar áreas de cultura é preciso dar mais ênfase e destacar mais estas áreas no sistema escolar, por exemplo. Assim, nos olhos das crianças e geracões futuras, a importância da música, ou de arte ficará no mesmo nível que a ciência ou a economia.


10- Acha que Portugal dá o destaque suficiente a artistas nacionais que se encontrem no estrangeiro?
Acho que Portugal não perde o caminho dos artistas nacionais que se encontrem no estrangeiro de vista. É dificil destacar os artistas quando estão a viajar e a dar a volta ao mundo, porque é simplesmente dificil localizá-los em todos os cantos. Portanto, nem sempre há informaçáo 24 horas por dia sobre os novos acontecimentos. Eu sinto que Portugal me tem dado muita importância e tenho muito orgulho em ser Portuguesa.


11- Que conselho daria a quem pretende iniciar a sua vida profissional no estrangeiro?
Viver e trabalhar no estrangeiro é um desafio. A cultura é diferente, e há de ser ainda mais difícil adaptar quando não se fala decentemente a língua. É uma questão de saber quais os teus objectivos, as tuas razões e saber que nem sempre vai ser facil. Existem muitas saudades, às vezes solidão, mas como se costuma dizer, o que não mata, engorda!


Friday, April 9, 2010

Ana Mesquita



Ana Mesquita é a cara da Fashion TV em Portugal. Nascida em Moçambique, Ana é uma pessoa que consegue alcançar tudo a que se predispõe. Já fez rádio, já foi entrevistadora do canal Sic Mulher, entre muitas outras coisas. Venham conhecer o exemplo de uma pessoa criativa e lutadora, que além de tudo o mais une em si duas características muito importantes na sua área: a simpatia e a beleza.




1- Nasceu em Moçambique, mas desde muito cedo que vive em Portugal. Como foi a sua infância em África? Como foi para si a mudança, tanto de local como de estilo de vida?

Qual a ligação que ainda mantém com Moçambique?

Crescer em África, até aos 8 anos, foi ter podido desenvolver liberdade e amplitude no olhar. O povo africano é o mais maternal do planeta. Tive bons colos, sol, mar, gotas de chuva grossa, árvores para subir, amêijoa vendida à porta de casa, um sorriso de ombro a ombro. Mudar custou. Era grande a mudança. Descobri muito cedo que tinha de lutar por mim. Saí-me bem. Mantenho o sorriso em tudo o que faço. Agradeço a vida. Ligo-me a Moçambique de diversos modos. E sei que isto ainda vai dar frutos.



2- Apesar de se ter formado em Design, foi jornalista para o jornal Expresso, fez rádio, foi editora do programa Moda 21, foi entrevistadora para o canal Sic Mulher, entre outras coisas. De todas as suas experiências profissionais, qual a que verdadeiramente a apaixonou mais?

Todas. Mesmo. Não digo que sim a tudo para que me convidam, mas quando digo é porque sinto confiança e entrego-me. Quando tenho êxito, sei que foi pelo que suei. Quando erro, é na proporção da entrega. Gosto de trabalhar em domínios diferentes como desenhar as fardas da Galp ou fazer um programa diário sobre afectos durante 3 anos como fiz com Júlio Machado Vaz, ou escrever a biografia de um grande músico como o Rui Veloso. E variando aprendo.



3- Na sua formação nota-se a vontade em querer estar ligada ao Design, seja na escrita ou na televisão. De onde surgiu o seu gosto pelo Design e pela moda?

De uma mãe jurista e de um pai empresário saíram 3 filhos criativos. Vem tudo de uma avó chamada Alexandrina, neta de judeus polacos fugidos da I Guerra que inspirou os netos. Ela escrevia. Foi das primeiras mulheres sindicalizadas como jornalistas no Porto. Deixou livros de poesia e prémios ganhos. Era multifacetada e de uma elegância que tocava forte.



4- É o rosto da Fashion TV em Portugal, um dos projectos audiovisuais mais ambiciosos no mundo da moda. Como vê este projecto, a nível de realização pessoal e profissional?

É, obviamente, um orgulho ser o rosto nacional de um canal com a projecção internacional do FashionTV. E eu e o director do canal temos planos para alargar os conteúdos da emissão portuguesa.



5- A revista LAMag é um projecto que segue as tendências da moda, arte, decoração, etc. Como tem sido a evolução da revista, tanto no mercado de venda, como na sua elaboração?

É um projecto que a tem satisfeito?

A LAmag é como um filho. E ter um filho é bom, fazê-lo crescer é ainda melhor. A Lanidor é a marca portuguesa de têxtil com melhor implantação no mercado nacional e internacional. Tem à frente dos comandos um homem visionário chamado João Pedro Xavier. Tudo o que esteja ao meu alcance fazer para ajudar a posicionar a marca no topo, farei com prazer. A revista tem sofrido as mais diversas fases, exactamente por não estar no mercado dentro dos cânones habituais. Tem sido uma luta ganha por todos nós: a Lanidor e a pequena mas muito eficaz equipa que a produz. Sinto que conquistámos leitoras(es) ao logo destes quatro anos e meio e que ainda há um longo caminho a percorrer.



6- Em 2007 foi editada a biografia de Rui Veloso, escrita por si. Fale-nos um pouco deste seu projecto literário. Como surgiu o convite para escrever esta biografia?

O Rui procurou alguém para escrever e achou-me disponível. Foi um ano e tal a entrevistar meio mundo ligado à música. Pelo Rui passou toda a história recente da música portuguesa. É um homem grande extremamente talentoso. Trabalhei com prazer, diverti-me e fiz um amigo para a vida.



7- Como foi para si receber em 1998 o prémio de melhor jornalista de moda?

Foi um orgulho e mais uma vez a certeza de que a entrega ao que fazemos, mais cedo ou mais tarde, acaba recompensada. Durante anos escrevi sobre moda, no Expresso, com um enorme sentido da responsabilidade. A moda era até então domínio de futilidade nas redacções dos jornais. Sei que iniciei a mudança para uma nova consciência sobre a força cultural e financeira da moda que começa agora, ao fim de 15 anos, a mostrar bons efeitos.



8- Como é que avalia a actual situação da cultura em Portugal? O que faria para a impulsionar?

Faria cursos para ensinar os pescadores (leia-se artistas) a usarem melhor as suas canas. Em Portugal os protagonistas das artes esperam que lhes dêem “peixe” para cozinhar as suas obras. É necessário que aprendam a desenvolver redes sociais e a promoverem-se para conquistar investidores ou mecenas por si mesmos. O Ministério da Cultura deveria agir mais como ponte diplomática entre os artistas e o poder financeiro.



9- Que áreas culturais destaca em Portugal?

Talvez a literatura. Temos uma língua vasta, óptimo ninho para a escrita. Agradam-me os escritores portugueses – bem como os brasileiros e - os universos que exploram.

E também gosto muito da nossa música. Sinto que não a promovemos tão bem como a escrita, o que é pena.



10- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais. O que gosta na área do cinema, música, etc?

Uiii João Miguel Fernandes, esta sua pergunta dava outra entrevista! Conto-lhe apenas que sou uma elitista ecléctica: gosto das mais diversas manifestações artísticas, desde que sejam de topo na sua área.






Tuesday, April 6, 2010

Introdução Histórica

O projecto Cultura Activa nasceu da vontade de um jovem em entrevistar pessoas ligadas à cultura nacional.
Em formato blog, o objectivo passa por aproximar essas figuras culturais ao povo em geral, dando a conhecer um lado mais pessoal dos entrevistados, de forma directa. Através de respostas objectivas e intimas, podemos conhecer um pouco melhor quem está ligado à cultura do nosso país, tanto a sua opinião sobre o estado cultural de Portugal, como conselhos para quem quer iniciar a sua vida em alguma área cultural, ou até mesmo conselhos gerais e experiências pessoais, que nos podem ajudar a compreender um pouco da forma de funcionar e pensar de cada entrevistado.

Tem sido espantoso entrevistar tantas pessoas bastante interessantes. Cada uma delas foi especial e deu-me algo mais, algo que não se obtém sem ser através desta experiência. Como tal, espero vir a juntar a Hélio Morais, Paulo Furtado, Duarte Victor, Herman José, Joaquim Nicolau, Fernanda Lapa, Hugo d'Alte, Rui Sinel de Cordes, Carlos Moura, Carlos Nobre, Pedro Fernandes, João Braga, Inês Santos e Mila Ferreira, muitos mais nomes.


Um grande obrigado a todos os que têm tornado este sonho possível. Um grande obrigado a todas as pessoas que entrevistei, tanto pela partilha de histórias, como pela disponibilidade e simpatia.

João Miguel Fernandes


link da página do facebook:

Saturday, April 3, 2010

Mila Ferreira


Mila Ferreira é cantora, actriz, advogada e praticante de ballet. Já trabalhou na rádio e na televisão. Mila é uma pessoa apaixonada pela comunicação, pela justiça e pela dança, sendo que o seu lado sonhador se une a todas as suas "profissões" e hobbies, permitindo-lhe fazer tudo com o máximo empenho e enorme qualidade. Uma grande cantora e uma grande mulher em entrevista ao blog Cultura Activa.



1- Desde muito pequena que canta, que a música faz parte de si. De onde vem esse desejo em cantar e pela música em geral?
Sim, sempre fez parte da minha vida desde a infância. Sempre brinquei aos festivais e cantei para os professores e colegas de escola. Penso que é de família. Quer o meu pai, quer o meu avô eram músicos amadores.


2- Além da música sempre teve uma profunda ligação com o Ballet, a Advocacia e a representação? Como concilia esses três gostos/profissões com a vida de cantora? Qual prefere e porquê?
Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Pela dança, porque além de voar a alma, também voa o corpo, o que é maravilhoso. Pelas outras todas, onde incluo também a apresentação de programas, porque, como costumo dizer, sou sobretudo uma comunicadora e que adora o que faz. Comunico através da voz falada ou cantada, através da palavra quando defendo pretensões jurídicas e comunico através do corpo, no caso do ballet. Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Umas coisas por um motivo, outras por outro.


3- Como foi para si ser chamada para uma audição na Valentim de Carvalho? Tendo em conta que era ainda tão jovem.
Foi muito interessante, porque eu tinha muita coragem e escrevi uma carta, referindo que gostaria de dar continuidade à minha carreira como cantora, a qual já tinha iniciado com as “Alegres Comadres”. Fui chamada pelo meu querido amigo Nuno Rodrigues que me fez um casting e fiquei escolhida para integrar a Banda do Casaco. Por ser tão jovem, o Nuno e a mulher deram-me guarida na sua casa até ficarem concluídas as gravações.


4- Como vê o estado actual da música em Portugal? Considera que foi mais dificil para si, naquele tempo, ter sucesso na música do que é actualmente?
A música está a passar uma fase muito boa em termos de criatividade, mas uma fase muito má em termos de apoios.
Antigamente era mais fácil, tinha-se mais carinho, admiração e respeito pela arte, pelo talento e por tudo o que respirava cultura. Agora há uma grande clivagem, por um lado, aquilo que é muito erudito e que ainda tem algum apoio, por outro, toda a restante música e mete-se tudo no mesmo saco, e não se dá a visibilidade necessária aquilo que vai saindo e que é realmente bom.
Antigamente tinha-se sucesso mais facilmente, porque também se tinha mais visibilidade.
Por outro lado, o facto de não existir regulamentação que proteja as obras e os seus autores e que permita downloads ilegais, leva a que em breve a música deixe de ser produzida, porque não se vende. Um mundo sem música é sempre um mundo mais pobre e isso as pessoas ainda não têm consciência.


5- Fale-nos um pouco do programa da TVI "Queridos Inimigos". Como foi para si o tempo que lá passou? E o "Made In Portugal", da RTP?
No programa "Queridos Inimigos" foram meses, dias, horas maravilhosas. Trabalhei com pessoas muito queridas, muito talentosas e profissionais de quem fiquei profundamente amiga. Agradeço muito a grande oportunidade que tive e todos os dias de felicidade que me proporcionaram.
No "Made In Portugal" foram momentos mágicos em que fiz, com toda a entrega e dedicação, aquilo que tanto amo: comunicar. Éramos uma equipa muito boa, harmoniosa e muito profissional!


6- De todos os sítios onde actuou, quais os que guarda mais carinho e porquê?
De todos por onde passei. Cada local tem uma história, uma magia própria. Adorei humanamente todas as experiências. Poderia cantar com mais ou menos condições, mas a verdade é que guardo grandes recordações das relações humanas que estabeleci. São momentos maravilhosos em que acabamos por receber sempre muito mais do que aquilo que damos. Embora tenha gostado de actuar em todos os locais, guardo com muito carinho as minhas actuações em Caldas da Rainha (a minha segunda terra).


7- Fale-nos de um momento pessoal e outro profissional que a tenham marcado em especial.

Pessoal, conhecer o meu marido.

Profissionalmente são tantas que é difícil escolher. De qualquer modo, sou da opinião que o melhor ainda está para vir, sobretudo porque ainda não lhes conheço o sabor. Gosto de saborear todos os momentos, doce e suavemente, para os reter durante muito mais tempo no meu interior.


8- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais a nível musical, cinema, literário, artes, etc.
Sou muito ecléctica. Na música gosto desde ópera (que canto), a pop, rock, enfim toda a música o que me faça sentir viva e me transmita boas sensações. Ao nível do cinema gosto do cinema americano, quanto ao drama e depois gosto de um cinema menos comercial, nomeadamente do cinema francês e do espanhol. Gosto de um cinema com menos efeitos especiais e com mais mensagem. Ao nível da literatura, gosto de poesia, romance, mas, sobretudo, de livros documento, seja biográfico seja histórico.


9- Qual a sua opinião sobre o estado actual da cultura em Portugal? Que áreas destaca? O que deveria mudar?
Quanto a cultura, estamos um pouco mal. Ainda não tomámos consciência de que a alma também precisa ser alimentada e que sem cultura as pessoas murcham interiormente. Devia mudar-se, sobretudo, a visão acerca da importância que lhe é dada e, em atenção a essa importância, dar-lhe todo o apoio que a cultura merece.


10 -A sua carreira musical é plena de sucessos. Que momento é que destaca como tendo sido o mais satisfatório da sua carreira musical?

A fase em gravei o meu primeiro disco, foi uma sensação muito bonita. E depois sempre que edito um novo disco. Quanto ao “Vem Voar”, fiquei muito feliz porque acho que consegui um pouco daquilo que pretendia: tocar o coração das pessoas nem que seja só um pouquinho.



11- É um exemplo de uma pessoa multifacetada e com sucesso em diversas áreas. Que conselho/os daria a quem pretende ter sucesso profissional, seja na música, escola ou outro projecto?

Sou uma pessoa de facto bastante polivalente. Quanto ao sucesso, agradeço as suas palavras. O meu conselho é que as pessoas corram atrás do seu sonho e daquilo que verdadeiramente gostam de fazer. Também digo que devem ter alguma precaução e que não devem ter ilusões, pois, a arte em particular, é uma actividade cíclica e isso acaba por ter reflexos do ponto de vista emocional. Actualmente também não é uma actividade tão compensadora como à partida as pessoas que estão de fora possam pensar. Se gostam realmente do que fazem devem estar dispostas a viver as alegrias, mas, também preparar-se para os momentos mais difíceis e duros.