Cultura Activa

Entrevistas a várias personalidades ligadas à cultura

Friday, April 9, 2010

Ana Mesquita



Ana Mesquita é a cara da Fashion TV em Portugal. Nascida em Moçambique, Ana é uma pessoa que consegue alcançar tudo a que se predispõe. Já fez rádio, já foi entrevistadora do canal Sic Mulher, entre muitas outras coisas. Venham conhecer o exemplo de uma pessoa criativa e lutadora, que além de tudo o mais une em si duas características muito importantes na sua área: a simpatia e a beleza.




1- Nasceu em Moçambique, mas desde muito cedo que vive em Portugal. Como foi a sua infância em África? Como foi para si a mudança, tanto de local como de estilo de vida?

Qual a ligação que ainda mantém com Moçambique?

Crescer em África, até aos 8 anos, foi ter podido desenvolver liberdade e amplitude no olhar. O povo africano é o mais maternal do planeta. Tive bons colos, sol, mar, gotas de chuva grossa, árvores para subir, amêijoa vendida à porta de casa, um sorriso de ombro a ombro. Mudar custou. Era grande a mudança. Descobri muito cedo que tinha de lutar por mim. Saí-me bem. Mantenho o sorriso em tudo o que faço. Agradeço a vida. Ligo-me a Moçambique de diversos modos. E sei que isto ainda vai dar frutos.



2- Apesar de se ter formado em Design, foi jornalista para o jornal Expresso, fez rádio, foi editora do programa Moda 21, foi entrevistadora para o canal Sic Mulher, entre outras coisas. De todas as suas experiências profissionais, qual a que verdadeiramente a apaixonou mais?

Todas. Mesmo. Não digo que sim a tudo para que me convidam, mas quando digo é porque sinto confiança e entrego-me. Quando tenho êxito, sei que foi pelo que suei. Quando erro, é na proporção da entrega. Gosto de trabalhar em domínios diferentes como desenhar as fardas da Galp ou fazer um programa diário sobre afectos durante 3 anos como fiz com Júlio Machado Vaz, ou escrever a biografia de um grande músico como o Rui Veloso. E variando aprendo.



3- Na sua formação nota-se a vontade em querer estar ligada ao Design, seja na escrita ou na televisão. De onde surgiu o seu gosto pelo Design e pela moda?

De uma mãe jurista e de um pai empresário saíram 3 filhos criativos. Vem tudo de uma avó chamada Alexandrina, neta de judeus polacos fugidos da I Guerra que inspirou os netos. Ela escrevia. Foi das primeiras mulheres sindicalizadas como jornalistas no Porto. Deixou livros de poesia e prémios ganhos. Era multifacetada e de uma elegância que tocava forte.



4- É o rosto da Fashion TV em Portugal, um dos projectos audiovisuais mais ambiciosos no mundo da moda. Como vê este projecto, a nível de realização pessoal e profissional?

É, obviamente, um orgulho ser o rosto nacional de um canal com a projecção internacional do FashionTV. E eu e o director do canal temos planos para alargar os conteúdos da emissão portuguesa.



5- A revista LAMag é um projecto que segue as tendências da moda, arte, decoração, etc. Como tem sido a evolução da revista, tanto no mercado de venda, como na sua elaboração?

É um projecto que a tem satisfeito?

A LAmag é como um filho. E ter um filho é bom, fazê-lo crescer é ainda melhor. A Lanidor é a marca portuguesa de têxtil com melhor implantação no mercado nacional e internacional. Tem à frente dos comandos um homem visionário chamado João Pedro Xavier. Tudo o que esteja ao meu alcance fazer para ajudar a posicionar a marca no topo, farei com prazer. A revista tem sofrido as mais diversas fases, exactamente por não estar no mercado dentro dos cânones habituais. Tem sido uma luta ganha por todos nós: a Lanidor e a pequena mas muito eficaz equipa que a produz. Sinto que conquistámos leitoras(es) ao logo destes quatro anos e meio e que ainda há um longo caminho a percorrer.



6- Em 2007 foi editada a biografia de Rui Veloso, escrita por si. Fale-nos um pouco deste seu projecto literário. Como surgiu o convite para escrever esta biografia?

O Rui procurou alguém para escrever e achou-me disponível. Foi um ano e tal a entrevistar meio mundo ligado à música. Pelo Rui passou toda a história recente da música portuguesa. É um homem grande extremamente talentoso. Trabalhei com prazer, diverti-me e fiz um amigo para a vida.



7- Como foi para si receber em 1998 o prémio de melhor jornalista de moda?

Foi um orgulho e mais uma vez a certeza de que a entrega ao que fazemos, mais cedo ou mais tarde, acaba recompensada. Durante anos escrevi sobre moda, no Expresso, com um enorme sentido da responsabilidade. A moda era até então domínio de futilidade nas redacções dos jornais. Sei que iniciei a mudança para uma nova consciência sobre a força cultural e financeira da moda que começa agora, ao fim de 15 anos, a mostrar bons efeitos.



8- Como é que avalia a actual situação da cultura em Portugal? O que faria para a impulsionar?

Faria cursos para ensinar os pescadores (leia-se artistas) a usarem melhor as suas canas. Em Portugal os protagonistas das artes esperam que lhes dêem “peixe” para cozinhar as suas obras. É necessário que aprendam a desenvolver redes sociais e a promoverem-se para conquistar investidores ou mecenas por si mesmos. O Ministério da Cultura deveria agir mais como ponte diplomática entre os artistas e o poder financeiro.



9- Que áreas culturais destaca em Portugal?

Talvez a literatura. Temos uma língua vasta, óptimo ninho para a escrita. Agradam-me os escritores portugueses – bem como os brasileiros e - os universos que exploram.

E também gosto muito da nossa música. Sinto que não a promovemos tão bem como a escrita, o que é pena.



10- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais. O que gosta na área do cinema, música, etc?

Uiii João Miguel Fernandes, esta sua pergunta dava outra entrevista! Conto-lhe apenas que sou uma elitista ecléctica: gosto das mais diversas manifestações artísticas, desde que sejam de topo na sua área.






Tuesday, April 6, 2010

Introdução Histórica

O projecto Cultura Activa nasceu da vontade de um jovem em entrevistar pessoas ligadas à cultura nacional.
Em formato blog, o objectivo passa por aproximar essas figuras culturais ao povo em geral, dando a conhecer um lado mais pessoal dos entrevistados, de forma directa. Através de respostas objectivas e intimas, podemos conhecer um pouco melhor quem está ligado à cultura do nosso país, tanto a sua opinião sobre o estado cultural de Portugal, como conselhos para quem quer iniciar a sua vida em alguma área cultural, ou até mesmo conselhos gerais e experiências pessoais, que nos podem ajudar a compreender um pouco da forma de funcionar e pensar de cada entrevistado.

Tem sido espantoso entrevistar tantas pessoas bastante interessantes. Cada uma delas foi especial e deu-me algo mais, algo que não se obtém sem ser através desta experiência. Como tal, espero vir a juntar a Hélio Morais, Paulo Furtado, Duarte Victor, Herman José, Joaquim Nicolau, Fernanda Lapa, Hugo d'Alte, Rui Sinel de Cordes, Carlos Moura, Carlos Nobre, Pedro Fernandes, João Braga, Inês Santos e Mila Ferreira, muitos mais nomes.


Um grande obrigado a todos os que têm tornado este sonho possível. Um grande obrigado a todas as pessoas que entrevistei, tanto pela partilha de histórias, como pela disponibilidade e simpatia.

João Miguel Fernandes


link da página do facebook:

Saturday, April 3, 2010

Mila Ferreira


Mila Ferreira é cantora, actriz, advogada e praticante de ballet. Já trabalhou na rádio e na televisão. Mila é uma pessoa apaixonada pela comunicação, pela justiça e pela dança, sendo que o seu lado sonhador se une a todas as suas "profissões" e hobbies, permitindo-lhe fazer tudo com o máximo empenho e enorme qualidade. Uma grande cantora e uma grande mulher em entrevista ao blog Cultura Activa.



1- Desde muito pequena que canta, que a música faz parte de si. De onde vem esse desejo em cantar e pela música em geral?
Sim, sempre fez parte da minha vida desde a infância. Sempre brinquei aos festivais e cantei para os professores e colegas de escola. Penso que é de família. Quer o meu pai, quer o meu avô eram músicos amadores.


2- Além da música sempre teve uma profunda ligação com o Ballet, a Advocacia e a representação? Como concilia esses três gostos/profissões com a vida de cantora? Qual prefere e porquê?
Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Pela dança, porque além de voar a alma, também voa o corpo, o que é maravilhoso. Pelas outras todas, onde incluo também a apresentação de programas, porque, como costumo dizer, sou sobretudo uma comunicadora e que adora o que faz. Comunico através da voz falada ou cantada, através da palavra quando defendo pretensões jurídicas e comunico através do corpo, no caso do ballet. Tenho uma grande paixão por tudo o que faço. Umas coisas por um motivo, outras por outro.


3- Como foi para si ser chamada para uma audição na Valentim de Carvalho? Tendo em conta que era ainda tão jovem.
Foi muito interessante, porque eu tinha muita coragem e escrevi uma carta, referindo que gostaria de dar continuidade à minha carreira como cantora, a qual já tinha iniciado com as “Alegres Comadres”. Fui chamada pelo meu querido amigo Nuno Rodrigues que me fez um casting e fiquei escolhida para integrar a Banda do Casaco. Por ser tão jovem, o Nuno e a mulher deram-me guarida na sua casa até ficarem concluídas as gravações.


4- Como vê o estado actual da música em Portugal? Considera que foi mais dificil para si, naquele tempo, ter sucesso na música do que é actualmente?
A música está a passar uma fase muito boa em termos de criatividade, mas uma fase muito má em termos de apoios.
Antigamente era mais fácil, tinha-se mais carinho, admiração e respeito pela arte, pelo talento e por tudo o que respirava cultura. Agora há uma grande clivagem, por um lado, aquilo que é muito erudito e que ainda tem algum apoio, por outro, toda a restante música e mete-se tudo no mesmo saco, e não se dá a visibilidade necessária aquilo que vai saindo e que é realmente bom.
Antigamente tinha-se sucesso mais facilmente, porque também se tinha mais visibilidade.
Por outro lado, o facto de não existir regulamentação que proteja as obras e os seus autores e que permita downloads ilegais, leva a que em breve a música deixe de ser produzida, porque não se vende. Um mundo sem música é sempre um mundo mais pobre e isso as pessoas ainda não têm consciência.


5- Fale-nos um pouco do programa da TVI "Queridos Inimigos". Como foi para si o tempo que lá passou? E o "Made In Portugal", da RTP?
No programa "Queridos Inimigos" foram meses, dias, horas maravilhosas. Trabalhei com pessoas muito queridas, muito talentosas e profissionais de quem fiquei profundamente amiga. Agradeço muito a grande oportunidade que tive e todos os dias de felicidade que me proporcionaram.
No "Made In Portugal" foram momentos mágicos em que fiz, com toda a entrega e dedicação, aquilo que tanto amo: comunicar. Éramos uma equipa muito boa, harmoniosa e muito profissional!


6- De todos os sítios onde actuou, quais os que guarda mais carinho e porquê?
De todos por onde passei. Cada local tem uma história, uma magia própria. Adorei humanamente todas as experiências. Poderia cantar com mais ou menos condições, mas a verdade é que guardo grandes recordações das relações humanas que estabeleci. São momentos maravilhosos em que acabamos por receber sempre muito mais do que aquilo que damos. Embora tenha gostado de actuar em todos os locais, guardo com muito carinho as minhas actuações em Caldas da Rainha (a minha segunda terra).


7- Fale-nos de um momento pessoal e outro profissional que a tenham marcado em especial.

Pessoal, conhecer o meu marido.

Profissionalmente são tantas que é difícil escolher. De qualquer modo, sou da opinião que o melhor ainda está para vir, sobretudo porque ainda não lhes conheço o sabor. Gosto de saborear todos os momentos, doce e suavemente, para os reter durante muito mais tempo no meu interior.


8- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais a nível musical, cinema, literário, artes, etc.
Sou muito ecléctica. Na música gosto desde ópera (que canto), a pop, rock, enfim toda a música o que me faça sentir viva e me transmita boas sensações. Ao nível do cinema gosto do cinema americano, quanto ao drama e depois gosto de um cinema menos comercial, nomeadamente do cinema francês e do espanhol. Gosto de um cinema com menos efeitos especiais e com mais mensagem. Ao nível da literatura, gosto de poesia, romance, mas, sobretudo, de livros documento, seja biográfico seja histórico.


9- Qual a sua opinião sobre o estado actual da cultura em Portugal? Que áreas destaca? O que deveria mudar?
Quanto a cultura, estamos um pouco mal. Ainda não tomámos consciência de que a alma também precisa ser alimentada e que sem cultura as pessoas murcham interiormente. Devia mudar-se, sobretudo, a visão acerca da importância que lhe é dada e, em atenção a essa importância, dar-lhe todo o apoio que a cultura merece.


10 -A sua carreira musical é plena de sucessos. Que momento é que destaca como tendo sido o mais satisfatório da sua carreira musical?

A fase em gravei o meu primeiro disco, foi uma sensação muito bonita. E depois sempre que edito um novo disco. Quanto ao “Vem Voar”, fiquei muito feliz porque acho que consegui um pouco daquilo que pretendia: tocar o coração das pessoas nem que seja só um pouquinho.



11- É um exemplo de uma pessoa multifacetada e com sucesso em diversas áreas. Que conselho/os daria a quem pretende ter sucesso profissional, seja na música, escola ou outro projecto?

Sou uma pessoa de facto bastante polivalente. Quanto ao sucesso, agradeço as suas palavras. O meu conselho é que as pessoas corram atrás do seu sonho e daquilo que verdadeiramente gostam de fazer. Também digo que devem ter alguma precaução e que não devem ter ilusões, pois, a arte em particular, é uma actividade cíclica e isso acaba por ter reflexos do ponto de vista emocional. Actualmente também não é uma actividade tão compensadora como à partida as pessoas que estão de fora possam pensar. Se gostam realmente do que fazem devem estar dispostas a viver as alegrias, mas, também preparar-se para os momentos mais difíceis e duros.




Sunday, March 28, 2010

Inês Santos


Inês Santos foi a grande vencedora do Chuva de Estrelas em 1995, com apenas 15 anos. Desde aí que tem somado vitórias e sucessos à sua pequena, mas ilustre carreira. Lançou 2 discos, trabalhou com Filipe La Féria em "A Canção de Lisboa", colaborou com diversos artistas, entre os quais Olavo Bilac, José Cid, entre muitos outros. Esteve também no Canadá a participar numa Ópera, o qual lhe garantiu uma nomeação para um Dora Award, categoria de melhor performance numa Ópera.
Inês transmitiu-nos em palavras aquilo que também é no palco: uma rapariga humilde e cheia de talento.



1- Com apenas 15 anos ganhou o programa "Chuva de Estrelas". Como se sentiu na altura e como vê agora essa sua participação?
Na altura o Chuva de Estrelas era um programa muito visto. Os canais privados estavam a começar a aparecer e uma surgia uma nova forma de fazer televisão. A novidade fazia com que os programas tivessem muito sucesso e visibilidade, contudo eu sempre encarei o gosto pela música e o desejo de seguir o canto como profissão de uma forma muito natural, para mim era não só uma diversão e uma nova experiência como uma forma de me mostrar. Hoje em dia, quando olho para trás, vejo que os meus concorrentes eram muito bons, que ganhei por toda a atitude e paixão mostrada, mas que hoje em dia tenho muito mais experiência e qualidade do que na altura.


2- Está desde muito cedo ligada à música. De onde vem essa paixão?
Muita gente na família gosta de cantar, o meu pai e o meu avô cantaram em coros e do lado da minha mãe todos cantam, mas nenhum de forma séria e profissional.
Tinha 3 anos e já dizia que queria ser cantora! É inexplicável.


3- Desde muito jovem que teve contacto com pessoas muito importantes da música nacional. Qual foi para si o trabalho/projecto que lhe deu mais prazer participar? Com quem gostou mais de trabalhar?
É difícil responder apenas uma coisa. Para mim todas as experiências têm muito valor, porque aprendo sempre coisas novas, sobre mim e sobre a área, mas também conheço pessoas novas. No campo pessoal adorei trabalhar com o Fernando Mendes, o José Raposo, a Maria João Abreu, o Herman José e o maestro Pedro Duarte ...muita gente. A nível profissional "A canção de Lisboa" e a Ópera que protagonizei no Canadá foi onde mais cresci.


4- Participou na peça "A canção de Lisboa" de Filipe La Féria. Como foi para si trabalhar com um dos nomes mais importantes do teatro em Portugal?
Foi uma autêntica loucura! Aprende-se e trabalha-se muito. O La Féria é um mestre a encenar e a chegar onde quer com os recursos humanos e logísticos que tem. Foi também a minha estreia como actriz...foi ele que viu em mim essa capacidade.


5- Esteve no Canadá a participar numa ópera sobre Pedro e Inês. Como foi para si essa participação?
Maravilhosa! Senti um enorme orgulho em representar Portugal, em levar um pouco da história do nosso país, da minha cidade natal e da quinta das lágrimas, onde brinquei muito quando era mais nova.
Trabalhei muito para superar dificuldades e no fim, inesperadamente, fui nomeada para um Dora Award na categoria de melhor performance numa ópera. (um prémio importantíssimo de Performing Arts)
Fiquei mesmo bastante satisfeita!


6- De todos os sitios onde já cantou, quais os que destaca tanto pelo nível cultural como pela recepção?
O musikcentrum Wredenburg em Utrecht, onde cantei Fado, pelo respeito e curiosade dos holandeses, e o Brasil, sempre que canto lá sou muito bem recebida e acarinhada. Acho que o Fado lhes toca de maneira especial e quando canto lá procuro cantar Fado.Também adorei, pela experiência pessoal, cantar em Birmingham na Eurovisão em 1998.


7- Para si o que mudou com a idade? A nível pessoal e profissional.
Hoje em dia sou muito mais dedicada ao trabalho. Trabalho com mais seriedade, com mais cuidado, tento absorver mais de cada experiência. A nível pessoal sofro menos com a incerteza característica da nossa profissão. Sei que quando respeitamos a profissão e fazemos o nosso melhor o trabalho acaba por vir sempre....


8- Como vê actualmente o estado da cultura em Portugal? E face a exemplos estrangeiros?
Muita falta de investimento em educar as crianças e os Portugueses em geral. Hoje em dia procura-se a facturação imediata.
Também me indigna quem escolhe estas profissões só pela visibilidade e fama que daí pode advir.
De resto prefiro não opinar.


9- O que destaca nas diversas áreas culturais em Portugal? O que faria para impulsionar a cultura?
Criaria incentivos para jovens artistas e projectos de menos visibilidade, mas que também devem ter o seu lugar.
Só com a diversidade podemos construir uma personalidade rica. Senão seremos apenas cópias uns dos outros.


10- Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais, nomeadamente na música, cinema, literatura, etc...
Adoro Viajar! Acho que para mim isso é o mais importante. Interesso-me por vários assuntos e muitas vezes até aos assuntos que não me interessam dou o beníficio da dúvida, porque acredito que me posso surpreender e porque o conhecimento não ocupa lugar. No entanto, pouco me interesso sobre política, futebol e economia, mas creio que me mantenho mais ou menos a par...
Adoro música desde world music a Monserrat Caballé (que adorava conhecer), gosto de artes plásticas , geografia, sempre que posso vou ao cinema, mas não gosto de coisas demasiado intelectuais, gosto de saber sobre diferentes etnias e costumes .
Adoro livros auto-biográficos e sobre direitos humanos e romances fantasiosos....Gosto de comer muito e de não fazer nada...


11- Destaque um momento importante da sua infância.
Tenho vários, muitas viagens, muitas brincadeiras, muitas actividades. Tenho 3 irmãos. Pelo significado afectivo talvez o dia em que com 3 anos inspirei o meu avô materno a escrever um poema sobre mim em que dizia que eu cantava e dançava junto a ele e que um dia iria ser a alegria da família.


12- Que conselho daria a quem quer seguir o mundo da música?
Se o deseja por paixão, por vocação, lute, procure, arrisque, crie condições..por exemplo eu crio e vendo os meus espectáculos.
Aconselhá-lo-ia a ir à luta com verdade!


Wednesday, March 24, 2010

João Braga


João Braga é um dos melhores fadistas nacionais. Foi impulsionador da nova geração de fadistas, dando visibilidade a quem merecia.
O sportinguista de alma concede ao Cultura Activa uma grande entrevista, onde podemos ficar a conhecer melhor um dos grandes nomes do nosso país.

1- Começou desde muito cedo a cantar fado em Cascais e Lisboa. De onde surgiu este seu interesse pela música, nomeadamente pelo fado?
A minha atracção pela música aconteceu, creio, antes mesmo de começar a andar e ainda não tinha completado quatro anos dei-me conta de que conseguia cantar. O gosto pelo Fado só muito mais tarde, em 1962, é que me começou a invadir, por influência de um disco de Amália, o do “busto”, embora já gostasse de a ouvir interpretar outros géneros musicais e me entusiasmasse bastante com o som das guitarras. Esta aproximação ao Fado, numa idade algo serôdia para os “catedráticos” do género, que apenas concedem o estatuto de fadista a quem já cantava no colo da mãezinha, reforça a minha convicção de que para escutar o Fado, perceber a sua essência e, ainda mais, para o cantar, é preciso já ter vivido uns anos — o Fado é definitivamente, na minha opinião, uma canção adulta.


2- Como foi para si a estreia na televisão, num programa da RTP chamado "Alerta Está"? Como viveu esse momento e qual era a sua visão nessa altura perante um possível futuro de sucesso?
Nesse ano de 1967 começaram a acontecer-me muitas coisas ao mesmo tempo: saíram os meus primeiros discos, fui para a tropa, estreei-me nesse programa na RTP, e tudo isto no meio de um sucesso tremendo que não me modificou absolutamente nada, pois achei isso tudo natural.


3- Por que razão desistiu do curso de Direito?
Porque preferi a carreira artística à jurídica, e as duas não eram compatíveis, dada a forma intensa com que passei a exercer a primeira.


4- Como foi para si a participação no festival da canção?
Encarei todo esse episódio como uma experiência, mais ainda, uma aventura. O tema que me calhou atraiu-me sobretudo pelas palavras; o poema de Rita Olivais, “Amor de Raiz”, era muito bonito, foi por aí que aceitei participar e ainda bem que o fiz, porque o ambiente que encontrei era muito diferente daquele a que estava acostumado nos meios fadistas, mais aberto, mais desafiador, mais profissional.


5- Foi obrigado a ir para Madrid em 1974. Qual foi a razão que o forçou a sair do país e como era a sua visão perante tal facto?
Ainda hoje estou para saber por que me quiseram prender, a única coisa que sei a esse respeito é que Otelo Saraiva de Carvalho, então comandante da polícia política que substituiu a PIDE, o COPCON, assinou um mandato de captura em meu nome, mas com o espaço do motivo em branco, o que autorizava qualquer autoridade ou a pessoa a quem o documento fosse parar a meter lá o que bem entendessem. Quando regressei não obtive informação alguma sobre a causa de tal diligência, a não ser um pedido de desculpas, em nome dos militares, do Senhor Coronel Almeida e Castro, um homem alto, de porte digno e maneiras a condizer, quando regressado do exílio fui convocado para me dirigir ao 7º andar de um edifício na Avenida da Ilha da Madeira, ao Restelo, onde funcionavam os Serviços de Apoio ao Conselho da Revolução, para resolver a minha situação e aceitar a devolução de cartas, fotografias com familiares ou amigos e outros documentos privados que haviam subtraído da minha casa na Rua D. João V, nº 16, em Lisboa, quando as forças do COPCON, fuzileiros navais, se não estou em erro, juntamente com uns fulanos à paisana e braçadeiras do MDP/CDE, a invadiram derrubando a porta e levando tudo o que puderam, além da citada documentação pessoal: quadros a óleo, tapetes persas, loiças da Companhia das Índias, objectos em prata, garrafas de uísque, de conhaque francês, de vinho, de champanhe, e outras, discos, aparelhagem de hi-fi, molduras, peças de vestuário, águas-de-colónia, monitores de televisão, algumas jóias, um faqueiro antigo, enfim, tudo o que puderam na ocasião transportar, e que nunca mais voltei a pôr a vista em cima.


6- O seu CD "Cantar ao Fado" foi considerado por si como o melhor da sua carreira, por que razão, visto que editou imensos álbuns e EP's de enorme qualidade?
Era na altura a minha opinião, mas olhando hoje para os que fiz, realço igualmente o primeiro de todos, “É Tão Bom Cantar o Fado” (1967), “João Braga Canta António Calém”, de 1971, “Do João Braga para a Amália” (1984, o primeiro que continha poemas musicados por mim), Portugal” (1985), “Terra de Fados” (1990) e “Fado Fado” (1997), além do que saiu no ano passado, “Fado Nosso”. Embora hoje já não os cante daquela maneira, “Cantar ao Fado” continha quatro temas que gostei muito da forma como saíram no disco, “Ternura” (David Mourão-Ferreira), “Um Carnaval” (Alexandre O’Neill), “Bem Sei” (Fernando Pessoa), todos musicados por mim, e “Amália” (Manuel Alegre), com música de José Fontes Rocha.


7- De todos os países onde actuou, qual foi o/os que mais o marcou?
As actuações mais marcantes da minha carreira, fora de Portugal, foram: Barcelona (1970), Londres e Rio de Janeiro (ambas em 1977), Estrasburgo (1989), Nova Iorque (1998), Cidade do México (1999), Malmöe e Arzila (ambas em 2001), Recife (2007), e no nosso país, destaco as do Zip Zip (1969), uma no São Luiz (1991), outra no Teatro Nacional de São Carlos (1992, concerto dos 25 anos de carreira), na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (2006) e outra ainda em Vila Nova de Cerveira (2007). Em termos absolutos foi uma em Vigo, por ocasião do prestigiado Festival Are-More de 2003, no Teatro Cine-Fraga, com cinco chamadas ao palco, no final, as últimas duas com pateada, o que nunca me havia acontecido — é uma sensação absolutamente arrepiante!


8- Como vê o actual estado do fado?
Orgulho-me da contribuição dada em prol da nova geração de fadistas quando, a partir de 1990, comecei a dar visibilidade a novas vozes, por entender que elas o mereciam. Considero que essa estratégia de apostar nos mais novos foi muito bem sucedida e creio que o Fado do tempo que passa se espelha na alta qualidade que a maior parte dos jovens que fui convidando acabou por demonstrar.


9- Qual é a sua opinião sobre o actual estado da cultura em Portugal? O que deve ser alterado?
Infelizmente a minha opinião está muito longe de ser favorável sobre essa importante área da sociedade portuguesa. Porque se já era uma desgraça manter-se a população portuguesa no obscurantismo cultural em que se encontrava há quarenta anos, é inelutavelmente pior a instilação de uma acultura pimba em que a mergulharam desde então. Alguma coisa tem de ser feita e quanto mais depressa melhor, começando pelo aperfeiçoamento qualitativo do Ensino e acabando com a subserviência quase caprina em relação a tudo quanto as multinacionais da cultura nos impingem.


10- Que áreas culturais destaca em Portugal e quais as suas preferidas? Fale-nos um pouco dos seus gostos pessoais na música, literatura, cinema, etc.
Acima de todas a Poesia, porque Portugal é um país de poetas, creio inclusive que é a única onde, em termos de escola, podemos pedir meças a qualquer outro, incluindo a Irlanda, com uma quantidade de vultos de invulgar qualidade, a mesma que se pode constatar nas obras de Pessoa, Camões, Florbela, Régio, Antero, Pascoaes, Homem de Mello, Sophia, Torga, e outros mais. Noutras áreas, a minha preferência vai para artistas como Vieira da Silva (morreu francesa), Maria João Pires (em vias de se tornar brasileira), Paula Rego (em Inglaterra consideram-na inglesa), Amadeu Sousa Cardoso (francês, para muitos), Pomar, Maluda; algum cinema que se fez entre os anos 30 e 50, com António Silva, Vasco Santana, António Lopes Ribeiro, Maria Matos, Ribeirinho, João Villaret, Alves da Cunha, mais alguns filmes de Manoel Oliveira; na prosa, Agustina Bessa Luís ou José Cardoso Pires; na música, a violoncelista Guilhermina Suggia, o pianista Sérgio Varela Cid, o tenor Tomás Alcaide, o guitarrista Carlos Paredes, as baladas de José Afonso, Bernardo Sassetti ou Rão Kyao; e, claro, o Fado, guitarristas e fadistas, com Amália Rodrigues à cabeça. Tirando isto pouco mais temos, infelizmente, de que nos possamos orgulhar na concertação mundial das nações.


11- É sportinguista assumido. De onde veio esse "amor"?
De pequenino, pois o meu pai fez-me sócio do Sporting Clube de Portugal um dia depois de ter nascido, pois fui dado à luz a um Domingo. Mais tarde a família foi viver para Cascais e eu deixei de ser sócio. Por volta dos meus dezasseis anos comecei a ler os estatutos do clube e percebi então por que não poderia escolher outro, dado que eles consagram muitos dos valores essenciais que norteiam a minha maneira de estar na vida — basta referir que naqueles tempos, para se ser sócio do SCP, era necessário ter-se o certificado de registo criminal limpo. Recuperei então a condição de sócio, já não por vontade paternal, mas por opção pessoal, até aos dias de hoje, podendo assim orgulhar-me de ser sportinguista a dobrar!